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O
MAMBEMBE
Artur Azevedo
ATO
PRIMEIRO
Quadro 1
Sala de um plano só
em casa de dona Rita. Ao fundo, duas janelas pintadas.
Porta à esquerda dando para a rua, e porta
à direita dando para o interior da casa.
CENA I
MALAQUIAS, moleque, depois
EDUARDO
(Ao levantar o pano, a cena está vazia.
Batem à porta da esquerda.)
MALAQUIAS (Entrando da direita.) - Quem será
tão cedo? Ainda não deu oito horas!
( Vai abrir a porta da esquerda.) Ah! é
seu Eduardo!
EDUARDO (Entrando pela esquerda.) -Adeus, Malaquias.
Quedê dona Rita? Já está levantada?
MALAQUIAS - Tá lá dentro, sim, sinhô.
EDUARDO - E dona Laudelina?
MALAQUIAS - Inda tá drumindo, sim, sínhô.
EDUARDO - Vai dizer a dona Rita que eu quero falar
com ela.
MALAQUIAS - Sim, sinhô. (Puxando conversa.)
Seu Eduardo onte tava bom memo!
EDUARDO - Tu assististe ao espetáculo?
MALAQUIAS - Ora, eu não falho! Siá
dona Rita não me leva, mas eu fujo e vou.
Fico no fundo espiando só!
EDUARDO - Gostas do teatro, hein?
MALAQUIAS - Quem é que não gosta
do que é bão? Que coisa bonita quando
seu Eduardo fingia que morreu quase no fim! Xi!
Parecia que tava morrendo memo. Só se via
o branco do olho! E dona Laudelina ajoelhada,
abraçando seu Eduardo! Seu Eduardo tava
morrendo, mas tava gostando, não é,
seu Eduardo?
EDUARDO - Gostando, por quê? Cala-te!
MALAQUIAS - Então Malaquia não sabe
que seu Eduardo gosta de dona Laudelina?
EDUARDO - E ela?... Gosta de mim?
MALAQUIAS - Eu acho que gosta... pelo meno não
gosta de outro... eu sou fino; se ela tivesse
outro namorado, eu via logo. Aquele moço
que mora ali no chalé azu, que diz que
é guarda-livro, outro dia quis se engraçá
com ela e ela bateu coa jinela na cara dele: pá...
eu gostei memo porque gosto de seu Eduardo, e
sei que seu Eduardo gosta dela!
EDUARDO - Toma lá quinhentos réis.
MALAQUIAS - Ih! Obrigado, seu Eduardo. (Vai a
sair pela direita. Entra dona Rita.)
DONA RITA - Que ficaste fazendo aqui, moleque?
MALAQUIAS - Nada, não, senhora; fui abri
a porta a seu Eduardo e ia dizê a vosmecê
que ele tava ai.
DONA RITA - Vai acabar de lavar a louça,
mas vê lá se me quebras alguma coisa.
(A Eduardo.) Não se passa um dia que este
capeta não me quebra um prato... um copo...
uma xícara... Vai!
MALAQUIAS - Sim, senhora. (Sai pela direita.)
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