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O
ERMITÃO DO MUQUÉM
Bernardo Guimarães
AO
LEITOR
Cumpre-me dizer duas palavras
ao leitor a respeito da composição
do presente romance, o qual (seja dito de passagem)
repousa sobre uma tradição real
mui conhecida na província de Goiás.
Consta este romance de três partes muito
distintas, em cada uma das quais forçoso
me foi empregar um estilo diferente, visto como
o meu herói em cada uma delas se vê
colocado em uma situação inteiramente
nova, inteiramente diversa das anteriores.
A primeira parte está incluída no
Pouso primeiro, e é escrita no tom de um
romance realista e de costumes; representa cenas
da vida dos homens do sertão, seus folguedos
ruidosos e um pouco bárbaros, seus costumes
licenciosos, seu espírito de valentia e
suas rixas sanguinolentas. É verdade que
o meu romance pinta o sertanejo de há um
século; mas deve-se refletir que é
só nas cortes e nas grandes cidades que
os costumes e usanças se modificam e transformam
de tempos em tempos pela continuada comunicação
com o estrangeiro e pelo espírito de moda.
Nos sertões, porém, costumes e usanças
se conservam inalteráveis durante séculos,
e pode-se afirmar sem receio que o sertanejo de
Goiás ou de Mato Grosso de hoje é
com mui pouca diferença o mesmo que o do
começo do século passado.
Do meio dessa sociedade tosca e grosseira do sertanejo
o nosso herói passa a viver vida selvática
no seio das florestas, no meio dos indígenas.
Aqui força é que o meu romance tome
assim certos ares de poema. Os usos e costumes
dos povos indígenas do Brasil estão
envoltos em trevas, sua história é
quase nenhuma, de suas crenças apenas restam
noções isoladas, incompletas e sem
nexo. O realismo de seu viver nos escapa, e só
nos resta o idealismo, e esse mesmo mui vago,
e talvez em grande parte fictício. Tanto
melhor para o poeta e o romancista; há
largas enchanças para desenvolver os recursos
de sua imaginação. O lirismo, pois,
que reina nesta segunda parte, a qual abrange
os Pousos segundo e terceiro, é muito desculpável;
esse estilo um pouco mais elevado e ideal era
o único que quadrava aos assuntos que eu
tinha de tratar, e às circunstâncias
de meu herói.
O misticismo cristão caracteriza essencialmente
a terceira parte, que compreende o quarto e último
Pouso.
Aqui há a realidade das crenças
e costumes do cristianismo, unida à ideal
sublimidade do assunto. Reclama, pois esta parte
um outro estilo, um tom mais grave e solene, uma
linguagem como essa que Chateaubriand e Lamartine
sabem falar quando tratam de tão elevado
assunto.
Bem sei que a empresa é superior às
minhas forças; bom ou mau, porém,
aí entrego ao público o meu romance;
ele que o julgue.
Ouro Preto, 10 de novembro de 1858
O AUTOR
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