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O
CALIFA DA RUA DO SABÃO
Artur Azevedo
Inverossimilhança lírico-burlesca
em 1 ato e diversos idiomas imitada de uma farsa
de Labiche.
Música de Francisco
de Sá Noronha
PERSONAGENS
NATIVIDADE
NEGOCIANTE
CUSTÓDIO, guarda-livros
O primo alferes
JOSÉ, moço de hotel
JOSEFINA, modista francesa
DONA SIMPLÍCIA
A ação [se
passa] no Rio de Janeiro. Atualidade
CENA
I
CUSTÓDIO
(Só, sentado no divã,
de chapéu na cabeça e com as mãos
apoiadas num grande guarda-chuva.)
[CUSTÓDIO] -
Não sei o que pensar de tudo isto! Ainda
ontem era eu guarda-livros em casa do Senhor Natividade,
à Rua da Alfândega... quando o patrão
que, na véspera, chegara da Turquia, onde
tinha ido buscar um bonito sortimento de artigos
turcos, pôs-me no olho da rua, pelo simples
fato de eu ter deixado cair do nariz no varão,
um pequeno pingo de tabaco. (Erguendo-se.) O Senhor
Natividade devia lembrar-lhe que há dezessete
anos sou guarda-livros e é o primeiro pingo
de tabaco que me cai na escrituração.
Verdade seja que há apenas um mês
que eu gasto. Não me quis atender o bárbaro!
E disse-me com um gesto de Grão-turco:
- Saia, Senhor Custódio, saia! Tomei então
o meu guarda-chuva e o bonde, e fui para casa
desconsolado e murcho! Mas ontem à noite,
recebi do meu ex-patrão este misterioso
bilhete: (Lendo.) "Custódio, esteja
amanhã às nove horas da manhã,
no quarto andar da casa da Rua do Sabão,
número tal. O primeiro que chegar espere
pelo outro. Mistério! Mistério!!
Mistério!! !" Repito, não sei
o que pensar de tudo isto! Aqui estou no quarto
andar, fazendo quarto, e como são nove
horas e um quarto, e o ex-patrão não
aparece, vou pôr os quartos na rua. (Dispõe-se
a sair, quando Natividade entra misteriosamente
pelo fundo.)
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