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O
Arco de Sant'Ana
Almeida Garret
Os
créditos
da migração da
novela
"Arco
de Sant'Ana", de Almeida
Garret do
papel
para
a
mídia
eletrônica
se deve a Francisco Gomes Ferreira de Mello,
que
nos
enviou
gentilmente
o
texto
: frangfmello@hotmail.com
Capítulo
I
O
Arco da Santa
Mal
pensa o voluntário acadêmico, quando descendo
rua de Sant’Ana abaixo, o braço no armão da peça,
e os olhos na alta janela donde, entre o festivo
azul e branco, lhe sorri constitucional beldade; e
ele vai misturando, no alvoroçado pensamento,
conquistas bélicas e amorosas, as damas que há
de render e as guerrilhas que há de espatifar, -
e mais que tudo, as histórias que sobre isso se hão
de contar à noite no refeitório dos Grilos hoje,
oh impiedade! Convertido em casa de tripudio e
bambochata de maganos estudantes – mal pensa ele
que terreno clássico vai pisando, por que veneráveis
padrões históricos vai passando sem os conhecer,
que interessantíssima cena romântica é essa em
que, depois de tantos séculos, novo e não menos
interessante ator, lhe coube vir figurar.
Falte-te,
é verdade, ó nobre e histórica rua de
Sant’Ana, falta-te já aquele teu respeitável e
devoto arco, precioso monumento da religião de
nossos antepassados, e que, certo é, mais te
vedava a pouca luz do céu “material” que tuas
augustas dimensões deixam penetrar, mas era ele
em sim mesmo, foco da espiritual luz de devoção
que ardia no bendito nicho consagrado à gloriosa
santa do teu nome.
Caíste
pois tu, ó arco de Sant’Ana, como, em nossos
tristes e minguados dias, vai caindo quando aí há
nobre e antigo às mãos de inovadores plebeus,
para quem nobiliarquias são quimeras, e os veneráveis
caracteres heráldicos de rei-d’armas-Portugal língua
morta e esquecida que nossa ignorância despreza,
hieroglíficos da terra dos Faraós antes de
descoberta a inscrição Damieta! – Assentaram
os miseráveis reformadores que uma pouca de luz
mais e uma pouca de imundície menos, em rua já
de si tão escura e mal enxuta, era preferível à
conservação daquele monumento em todos os
sentidos respeitável!
Com
que “desapontamento” deste meu coração,
depois de tantos anos de ausência, não andei eu
procurando, em vão!... Na rua de Sant’Ana, uma
das primeiras que a minha infância conheceu, as góticas
feições daquele arco?... E a lampada que lhe
ardia contínua, e os milagres de cera que lhe
pendiam à roda, e toda aquela associação de
coisas que me trazia à memória os felizes dias
de minha descuidada meninice! – Meninice que
passou, sem mocidade, a esta tão trabalhosa, tão
árida, tão despegada virilidade, em que não
tardam as cãs e as rugas a visitar-me com mais
precoce velhice ainda!
Ai,
rua de Sant’Ana! Que é do teu arco e da tua
festa, quando se lhe armava aquele palanque com
que ficava uma igreja improvisada, e um coreto e
um púlpito, aonde grasnava a música, berrava o
frade, e toda a vizinhança tinha um dia de
folgar?... E muito se rezava e muito se namorava e
muito se comia, e todos iam para o céu – Ora
que o façam hoje!
Foi
o célebre fracasso de José U que acabou com a
devota festa e com o meu querido arco também.
José
U, para ilustração da presente história seja
dito, era um curioso figurão da minha terra, uma
das notabilidades, - como se dizia em França, e
hoje por cá se diz também já nos botequins –
umas das notabilidades desta nobre e sempre leal
cidade. Insigne mestre de capela, trazia
arrematadas todas as festas e oragos menores do
Porto e seus subúrbios, sem excetuar os três São
Joães rivais; a saber, São João o velho ou o
republicano, de Cedofeita, - São João o malhado,
da Lapa – São João o realista, do Bonfim.
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