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PRIMEIRA PARTE
A cela misteriosa
No ano de mil e setecentos e... , Paris então
muito governado pela Pompadour e um pouco por
Luís 15, palpitava de entusiasmo com um
escândalo original.
Por um instante, a grande cidade libertina distraía-se
dos seus desregramentos habituais e esquecia a
ordem dos Aphrodites e dos Hermaphrodites, e esquecia
as picantes palhaçadas de Taconnet e o
obsceno macaco de Nicolet e os expressivos fogos
de vista de Torré, e esquecia Ruggieri
com a sua exibição de pernas e colos
importados da América, e esquecia les spetacles
pyrrhiques e o Wauxhall, e esquecia as velhacas
e célebres representações
do barão d'Esclapon e da duquesa de Mazarin,
e esquecia-se até de ouvir as pilhérias
da magra, feia e adorada Guimard, para só
ter atenção para o novo escândalo
que acabava de surgir inesperadamente.
Era o caso que o famoso pregador La Rose tinha
como todos os anos, de pregar o seu sermão
da quinta-feira santa na capela real, e fora acometido
por um formidável ataque de asma, justamente
na véspera desse dia. Escreveu logo ao
vigário-geral, seu amigo particular, dando-lhe
parte do fato e pedindo-lhe que, sem perda de
tempo, tratasse de descobrir alguém que
o substituísse.
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