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MARIA
DUSÁ
Lindolfo Rocha
I
Abria-se para o nascente
o velho casarão da Lagoa Seca.
As dimensões da morada, e, mais que isso,
o amplo avarandado de peitoril, guarnecido por
centenas de tabiques, graciosamente recortados,
vistos de longe, sugeriam a presunção
de ser ali o pouso da abastança e do conforto.
No entanto, ao aproximar-se um pouco, o viajante
arguto, lido ou corrido, mal continha uma interjetiva
de desilusão, porque, em realidade, os
listrões vermelhos de goteiras que lavaram
o caiamento, corroendo o adobe de argila ferruginosa,
as paredes rachadas, desaprumadas e carcomidas,
na altura dos alicerces, indicavam uma casa abandonada.
Acrescente-se a vista de estacas isoladas, moirões
de porteiras inclinados e apodrecidos, e ter-se-á
a classificação de tapera que os
sertanejos dão a moradas que foram de gente
opulenta. De fato, os raros vizinhos de légua
e mais, denominavam essa antiga fazenda Tapera
da Lagoa, ou simplesmente: - Tapera. Mas assim
o faziam somente em ausência dos donos que
ainda a habitavam, posto que em estado de extrema
pobreza e miséria orgânica.
Ao encontrar-se com o velho Raimundo Alves, ou
com a qüinquagenária Maria Rosa, sua
mulher, os vizinhos, conhecidos velhos, talvez
por um impulso de compaixão para com os
herdeiros de uma das melhores fortunas do sertão
em princípios do século passado,
tratavam-no por senhor Raimundo e cortejavam-na
com o tratamento de dona. Era isso também
uma espécie de caridade que eles agradeciam
com um sorriso desconsolado, sem, contudo, esquecerem
jamais os modos altivos e os tiques de ricaços
de outros tempos.
Teve esse casal quatro filhas e dous filhos. Como
os pais, viviam quatro restantes, em ociosidade,
cobertos de andrajos, morrendo à fome.
A seca de 59, foi-lhes ainda um bom pretexto para
a incurável preguiça, porque ninguém
realmente podia cuidar de roças.
Apenas duas moças faziam rendas, cujo produto
insignificante supria-lhes algumas precisões,
de longe em longe.
Uma tarde, a velha assistia, no peitoril, ao trabalho
de rendas das duas filhas, enquanto o filho João
e a outra moça arrancavam, na catinga,
raízes de umbu, para o bró indigerível
da ceia, quando soaram ao longe os cincerros e
guizas de uma cabeçada. A seca tinha tornado
raras as tropas naquela estrada. Ouvidos habituados
à solidão receberam esses sons como
se escutassem o bimbalhar dos sinos duma igreja
em festa. Houve alvoroço. O sangue subiu
às faces das moças, que apanharam,
às pressas, almofadas e pelegos velhos,
em que se sentavam, e correram para o interior
da habitação, embaraçando
os bilros, cujos fios, encardidos de pó
vermelho, saltavam dos pés de mandacaru,
servindo de alfinetes. A velha correu ao quarto
açodada:
- Seu Raimundo, boas-novas! Aí vem uma
tropa!
- Levanta, homem! cria coragem!
Estremunhado, assim, do sono doentio de faminto,
o velho abriu os olhos vagarosamente. A mulher
insistia baixando a voz, porque soava já
no terreiro a estropiada do primeiro lote, de
mistura com os sons da cabeçada:
- Levanta, homem!
- Ó de casa! - brada no peitoril uma voz
forte, d'homem, enquanto retiniam chinelas sobre
os tijolos estragados.
O velho fez um esforço, sentou-se no catre
e respondeu:
- Ó de fora!
O arrieiro estava impaciente, porque mal ouviu
a resposta perguntou:
- Pode-se arranchar aqui? tem cômodo pra
os animais?
Não suportando mais a moleza do marido,
a velha saiu e, depois de dar e receber as boas
tardes, respondeu:
- Arranchar, pode; cômodo, só campo
fora.
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