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LOURENÇO
Crônica Pernambucana
FRANKLIN TÁVORA
Texto-base
digitalizado por:
Sérgio
Luiz Simonato – Campinas/SP
e-mail de contato: tiosergio@uol.com.br
Palavras que escrevi aos 3 de julho do ano
corrente, na folha exterior do original donde fora
copiado o “Lourenço” para a “Revista
Brasileira”.
Esta crônica, pronta há mais de dois anos
para seguir em volume o Matuto, cujo é conclusão lógica e natural, acaba de sair a lume
na Revista
Brasileira, a que dedico afetos de natureza
paternal.
Mudando-se o plano da publicação, tive
por necessário adaptar aos leitores da Revista,
que eu não podia presumir fossem absolutamente os
mesmos do Matuto.
Fiz por isso muitas alterações neste manuscrito.
Aumentei informações e minúcias, reproduzi idéias
inúteis no primeiro caso, indispensáveis no
segundo. Quem ler agora o Matuto
e o Lourenço
notará algumas repetições. É certo, porém,
que, na leitura, pode ser este desacompanhado
daquele. Pelo que respeita às repetições,
passará as vistas por cima delas o leitor benévolo,
sem enxergar matéria para corpo de delito contra
o autor, atentos os motivos explicados.
Cumpre advertir, que, conquanto cada uma
das duas narrativas tenha ação própria,
conquanto cada uma delas possa subsistir sem a
outra, para melhor conhecimento da guerra dos
mascates em que ambas se inspiraram, a leitura do Matuto
sem a do Lourenço, e vice-versa, não é bastante.
Esforcei-me por dar, quer no primeiro quer
no último, uma idéia tão completa quanto possível,
dessa guerra, ainda pouco estudada, não obstante
a sua originalidade, por si só no caso de
convidar a sério exame e meditação o
historiador depois do economista e do político.
Pouca ou nenhuma importância se lhe tem dado
entre nós; é certo contudo que, sem a guerra dos
mascates, a qual deixou um valo profundo entre
brasileiros e portugueses. não teríamos a revolução
de 1817, radiante e alva de que fora aquela guerra
o pálido crepúsculo precursor do dia da Independência
em 1822.
Antes da emancipação das colônias
americanas (1776), antes da conjuração mineira
(1789), reunida a nobreza com o Senado da Câmara
de Olinda, em 1710 tratou de dar à capitânia de
Pernambuco outra forma de governo, independente de
Portugal: foi a guerra dos mascates o primeiro
grito do novo mundo contra as metrópoles européias.
Não imitou Pernambuco a França nem os Estados
Unidos. Pensou e obrou por si muito antes de
nesses países em independência e república.
O ajuntamento discutiu a idéia sugerida
por vários nobres de se estabelecer em Olinda uma
república aristocrática modelada pela de Veneza;
e se esta idéia, considerada por todos de alta
magnitude, e recebida por muitos com medo, não
prevaleceu, porque foram votos vencedores os dos moderados
que, como meio de conciliar os ânimos discordes,
propuseram fosse aceito para governador o bispo
alheio às lutas partidárias, e a quem aliás
cabia o governo na falta do governador fugitivo,
por via de sucessão, conforme dispunha a carta-régia
prevenindo as vacâncias, nem por isso se deve
desconhecer a prioridade de Pernambuco em cogitar
na independência.
A devassa, instaurada depois da chegada do
governador Félix José Machado, ocasionou
homizios, prisões, seqüestros. que somente
tiveram termo em 1714. A capitania ficou
arruinada, muitas famílias na viuvez e na miséria;
muitas fortunas desapareceram: foram quatro longos
anos de calamidades, de lágrimas e luto. Se não
houve execuções capitais, não foi por faltarem
bons desejos ao governador e aos ministros, mas
por se poderem avir neste ponto com aquelas
autoridades sanguinárias os ouvidores da Paraíba
e das Alagoas; houve, porém, mortes e não poucas
por ocasião dos levantes nos assaltos e batalhas;
houve assassínios nas estradas e até nos refúgios
onde os nobres tinham buscado por em segurança a
sua vida.
Com todo o fundamento dever-se-ia reputar
esta guerra como uma das mais prejudiciais a
Pernambuco, se ela não fora a semente donde
pululou a planta da nossa independência política.
FRANKLIN
TÁVORA
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