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LIVRO
DE UMA SOGRA
Aluísio Azevedo
I
... se travail offre un autre
découragement; que
des choses hardies, et que je n'avance qu'en
tremblant, seront de plats lieux communs dix
ans après ma mort...
STENDHAL, Souvenirs d'Égotisme.
De volta da minha
última peregrinação à
Europa, depois de cinco anos de saudades do Brasil,
foi que, pela primeira vez, senti todo o peso
e toda a tristeza do meu isolamento e pensei com
menos repugnância na hipótese de
casar. Foi a primeira vez e também a última
que semelhante veleidade me passou pelo espírito;
daí a vinte e quatro horas tinha resolvido
ficar eternamente solteiro.
Estava então com trinta e cinco anos. Dessa
vez, como sempre me sucedia ao pensar no casamento,
veio-me logo à idéia o meu amigo
Leandro, e vou dizer por quê:
Leandro de Oviedo era, entre os meus companheiros
da primeira juventude, o único que se conservou
fiel à nossa amizade. Os outros tinham
todos desaparecido; alguns simplesmente do Rio
de Janeiro ou do Brasil, mas, ai! a melhor parte
havia já desertado deste mundo, para nunca
mais voltar.
Leandro foi sempre um rapaz bem equilibrado: coração
generoso, caráter sério, inteligência
regular, sobriedade nos costumes e tino para arranjar
a vida. Do nosso grupo era ele o mais moço
e também o mais forte e bem apessoado.
Tinha excelente educação física,
adquirida num colégio da Inglaterra; conhecimento
perfeito da esgrima e jogos de exercício;
destreza na montaria e plena confiança
nos seus músculos.
Ainda não contava ele vinte anos quando
o conheci, e a nossa intimidade foi apenas interrompida
pelas minhas viagens. Fui eu o confidente da grande
paixão que o levou a casar, quatro anos
depois, com uma encantadora rapariga, filha da
velha mais fantástica, mais diabólica,
mais sogra, que até hoje tenho visto.
A fúria, para consentir nesse casamento,
aferrou-se às mais leoninas exigências;
impôs condições as mais humilhantes
para o futuro genro. Já me não lembro
ao justo quais foram elas, posso afiançar
porém que eram todas originais e ridículas.
Havia uma, entre tais cláusulas, de que
nunca me esqueci, a da assinatura de certo documento,
em que o desgraçado pedia à polícia
não responsabilizasse ninguém pela
sua morte, caso ele aparecesse assassinado de
um dia para outro.
Mas Leandro estava irremediavelmente perdido de
amores; e a moça era muito rica, e ele
o que se pode chamar pobre. Não havia para
onde fugir; sujeitou-se a tudo e - casou.
Ainda porém não tinha desfrutado
o primeiro mês da sua lua-de-mel, e já
a sogra achava meios e modos de interrompê-la,
separando-o violentamente da noiva. E daí
em diante o casal nunca mais teve ocasião
de absoluta felicidade. O demônio da velha
parecia não poder ver o genro ao lado da
filha, e o pobre rapaz, que amava cada vez mais
apaixonadamente a esposa, não lograva um
segundo de ventura junto desta, sem ver surgir
logo entre eles o terrível espetro. Não
os deixava um instante sossegados; não
os perdia de vista um só momento, rondava-os,
fariscava-lhes os passos, como se vigiasse a rapariga
contra um estranho mal intencionado; perseguia
o genro só pelo gostinho de atormentá-lo;
contrariava-o nas suas mais justas pretensões
de marido, azedando-lhe a existência, intrometendo-se
na sua vida íntima, desunindo-o da mulher,
sobre quem conservava os mais despóticos
direitos.
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