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Guerra
dos Mascates
José de Alencar
ADVERTÊNCIA
INDISPENSÁVEL
CONTRA
ENREDEIROS
E
MALDIZENTES
Alinhavou-se
esta crônica sobre uma papelada velha, descoberta
de modo bem estúrdio.
Ia
proceder-se à eleição primária em uma paróquia
dos subúrbios do Recife. Desde a véspera que o rábula
político do lugar tinha arranjado a cousa a bico
de pena e conforme a senha; mas era preciso dar
representação e mostra oficial da farsa para
embaçar uns escrúpulos ridículos do presidente
calouro.
Para
esse fim um grupo de governistas, com o competente
destacamento policial, acampou na Matriz, onde a
oposição, que tivera o cuidado de meter-se nas
encóspias, não apareceu.
Na
ocasião de começar a encamisada, deu-se por
falta da urna de que ninguém se lembrara.
Felizmente lá desencavaram no fundo do armário
da sacristia um cofre ou arca de jacarandá, que
devia ter servido, no tempo de El-Rei Nosso
Senhor, para guardar os pelouros da vereança.
Havia
dentro da tal arca três antigualhas, dignas de
uma memória do Instituto Histórico. Eram: uma
cabeleira de rabicho que naturalmente pertenceu ao
último juiz do povo; uma liga de belbute com
atacadores de prata em forma de corações, adereço
casquilho de alguma Egéria dos tempos coloniais;
e finalmente um grosso rolo de escrita enleado com
um cadarço de Lamego.
Sem
o menor respeito atiraram essas preciosas relíquias
a um canto, onde as descobriu dois dias depois o
sacristão da freguesia.
Era
este o Sr. Beltrão, que ao mister de enxota-cães
da matriz acumulava o ofício de meirinho do
subdelegado, combinação esta que dava boa suma
das habilidades do nosso homem. Sentia ele também
suas cócegas pela política, e desde certo tempo
andava chocando de longe, como jacaré, o lugar de
inspetor de quarteirão. Até já lhe passara uma
vez pela cachola a idéia de trocar a opa vermelha
por uma farda azul de alferes da Guarda Nacional;
e saindo-lhe a cousa certa, por que não havia de
entrar na lista de eleitores, e pilhar a
subdelegacia?
Cometera
o governo de então o erro gravíssimo de não
prestar a consideração devida ao merecimento de
um homem dessa marca e a seus relevantes serviços,
como fósforo que era e da melhor fábrica.
Justamente ofendido em seus brios, o Sr. Beltrão
decidiu virar a jaqueta, pois ainda não se tinha
metido em casaca; e desandou em oposicionista de
quatro costados.
Achando
os objetos no canto, o gírio do sacrista
contemplou-os um instante com um sorriso manhoso e
deitou-se a passo de rafeiro para a casa do escrivão,
que era ali o tombo e conselho do partido. Nesse
mesmo dia partiu para a cidade um próprio,
levando pesado embrulho e uma carta com endereço
ao redator do órgão oposicionista.
O
tarelo escritor andava a tinir com o malogro de
sua candidatura. Ainda garraio em política,
tivera a ingenuidade de tomar ao sério a eleição
e concebera a louca esperança de furar a chapa do
governo, empresa mais difícil do que a de brocar
o Pão de Açúcar.
Foi
receber a carta e pular o tarouco do publicista à
mesa, onde cortadas as tiras de papel almaço,
desandou um artigo em estilo de bomba, no qual
trovejava deveras contra o despotismo que oprimia
o país.
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