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FLORES DA NOITE
Lycurgo José Henrique de Paiva
VirtualBooks
Formato:e-book/ PDF
Código:VBOFLORESDANOITE
© VirtualBooks 2002
Disponibilidade: Grátis para você para baixar agora!
Software Grátis requerido: Adobe Acrobat Reader

Trechos do livro eletrônico

FLORES DA NOITE
Lycurgo José Henrique de Paiva

I

A propósito do livro que pretende publicar o Sr. Lycurgo de Paiva, escrevi ligeiramente algumas palavras, as quais sendo destinadas unicamente à expressão do meu sentir, não merecem, e eu reclamo que não se lhes dê a consideração de um juízo crítico.
É um livro de versos, cuja leitura fez-me conceber bem fundadas esperanças sobre o seu autor.
Não é que nesse livro encontre-se a perfeição; pelo contrário, nele figura grande número de versos desleixados. Não é que nesse livro o autor nos tenha dado grandes e novas aspirações, grandes e novas idéias sobre o que mais interessa à humanidade; - pelo contrário, digamo-lhe a verdade, as suas vistas não alcançaram além do individual.
Mas não é isto propriamente um defeito do autor; é influência da sociedade em que vive e da literatura em que se embebe -, ambas devassas, impuras, repassadas de materialismo.
O autor das FLORES DA NOITE, em quem a meditação e o estudo têm muito que aperfeiçoar, é um viçoso talento que pode enriquecer-se da mais bela frutificação.
Sinto que o poeta novel não tenha querido face a face encarar a natureza e pedir-lhe inspirações: - lamento que se deixasse levar da admiração que a outros consagra, para tornar-se algumas vezes imitador, quando muitas outras provou poder ser original.

No seio das nossas matas, como no fundo de nossas almas, como no fundo da nossa história, há muita sombra de que o poeta se possa vestir, muito mistério de que a poesia deve-se ocupar.
Todas as alturas inacessíveis, todas as profundezas insondáveis, como Deus e o coração do homem, estão sempre aí para receberem e sumirem nos seus abismos as inquietudes, os sonhos, as lágrimas do poeta. A humanidade agita-se, a filosofia observa e a poesia canta.
Nos grandes poetas modernos é sobretudo o sentimento do infinito que transborda em suspiros harmoniosos ou em gritos desesperados. Deixar de sentir com eles tudo que engrandece a nossa natureza para entreter-se na pintura das paixões triviais e mesquinhas, é não compreender os nobres vôos da poesia moderna, gravitar para o nada e condenar-se ao medíocre.
Ser poeta é mais alguma coisa do que andar com os seios túmidos, o crânio em brasa, fingindo mágoas que não se sentem ou prazeres que não se gozam; - é mais alguma coisa do que viver a beijar lábios de rosa, ver e pegar em peitos de alabastro, etc., etc., e chamar-se lírico; - falar em túmulos, em desgraças... e dizer-se - melancólico; - repetir o insípido lugar comum do - progresso - e chamar-se - humanitário. Não é isto. Ser poeta é sobretudo pensar. O pensamento é a masculinidade do espírito.
Cabe aqui repetir umas belas palavras de Victor de Laprade. - O que há de difícil e admirável não é somente pintar e escrever bem, é pensar alguma coisa que valha a pena ser escrita e pintada.
Há uma grande e uma pequena poesia; e ao invés do que parece, não é a grande que sufoca a pequena; é esta que mata aquela, como os sentidos escancarados a todos os prazeres empanam o brilho das idéias, o brilho d'alma e embotam, quando ano arrancam todos os bons instintos do coração.
É singular, diz o filósofo Jouffroy, dar-se o nome de poesia a esta superficial inspiração que se ocupa em celebrar as alegrias frívolas, em deplorar as dores efêmeras das paixões.

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