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FLORES
DA NOITE
Lycurgo José Henrique
de Paiva
I
A propósito do livro
que pretende publicar o Sr. Lycurgo de Paiva,
escrevi ligeiramente algumas palavras, as quais
sendo destinadas unicamente à expressão
do meu sentir, não merecem, e eu reclamo
que não se lhes dê a consideração
de um juízo crítico.
É um livro de versos, cuja leitura fez-me
conceber bem fundadas esperanças sobre
o seu autor.
Não é que nesse livro encontre-se
a perfeição; pelo contrário,
nele figura grande número de versos desleixados.
Não é que nesse livro o autor nos
tenha dado grandes e novas aspirações,
grandes e novas idéias sobre o que mais
interessa à humanidade; - pelo contrário,
digamo-lhe a verdade, as suas vistas não
alcançaram além do individual.
Mas não é isto propriamente um defeito
do autor; é influência da sociedade
em que vive e da literatura em que se embebe -,
ambas devassas, impuras, repassadas de materialismo.
O autor das FLORES DA NOITE, em quem a meditação
e o estudo têm muito que aperfeiçoar,
é um viçoso talento que pode enriquecer-se
da mais bela frutificação.
Sinto que o poeta novel não tenha querido
face a face encarar a natureza e pedir-lhe inspirações:
- lamento que se deixasse levar da admiração
que a outros consagra, para tornar-se algumas
vezes imitador, quando muitas outras provou poder
ser original.
No seio das nossas
matas, como no fundo de nossas almas, como no
fundo da nossa história, há muita
sombra de que o poeta se possa vestir, muito mistério
de que a poesia deve-se ocupar.
Todas as alturas inacessíveis, todas as
profundezas insondáveis, como Deus e o
coração do homem, estão sempre
aí para receberem e sumirem nos seus abismos
as inquietudes, os sonhos, as lágrimas
do poeta. A humanidade agita-se, a filosofia observa
e a poesia canta.
Nos grandes poetas modernos é sobretudo
o sentimento do infinito que transborda em suspiros
harmoniosos ou em gritos desesperados. Deixar
de sentir com eles tudo que engrandece a nossa
natureza para entreter-se na pintura das paixões
triviais e mesquinhas, é não compreender
os nobres vôos da poesia moderna, gravitar
para o nada e condenar-se ao medíocre.
Ser poeta é mais alguma coisa do que andar
com os seios túmidos, o crânio em
brasa, fingindo mágoas que não se
sentem ou prazeres que não se gozam; -
é mais alguma coisa do que viver a beijar
lábios de rosa, ver e pegar em peitos de
alabastro, etc., etc., e chamar-se lírico;
- falar em túmulos, em desgraças...
e dizer-se - melancólico; - repetir o insípido
lugar comum do - progresso - e chamar-se - humanitário.
Não é isto. Ser poeta é sobretudo
pensar. O pensamento é a masculinidade
do espírito.
Cabe aqui repetir umas belas palavras de Victor
de Laprade. - O que há de difícil
e admirável não é somente
pintar e escrever bem, é pensar alguma
coisa que valha a pena ser escrita e pintada.
Há uma grande e uma pequena poesia; e ao
invés do que parece, não é
a grande que sufoca a pequena; é esta que
mata aquela, como os sentidos escancarados a todos
os prazeres empanam o brilho das idéias,
o brilho d'alma e embotam, quando ano arrancam
todos os bons instintos do coração.
É singular, diz o filósofo Jouffroy,
dar-se o nome de poesia a esta superficial inspiração
que se ocupa em celebrar as alegrias frívolas,
em deplorar as dores efêmeras das paixões.
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