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FILOMENA BORGES
Aluísio Azevedo
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Formato:e-book/ PDF
Código:VBOFILOMENA BORGES
© VirtualBooks 2002
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Trechos do livro eletrônico

FILOMENA BORGES
Aluísio Azevedo

I

FLORES DE LARANJEIRA

O Borges não cabia em si de contente no dia de seu consórcio com a filha de d. Clementina.
Estava a perder a cabeça - ia e vinha por toda a casa, radiante, cheio, abraçando os convidados, forçando-os a participarem daquela felicidade, que marcava a melhor e a mais extraordinária época de sua vida.
Era homem de meia idade, quarenta a quarenta e cinco anos, robusto, socado, fisionomia franca e extremamente bondoso, movimentos acanhados de quem não convive em alta sociedade, e um perene sorriso de dentes puros e perfeitos.
Usava o bigode raspado e uma barbinha de orelha a orelha, por baixo do queixo-o que o fazia parecer mais feio e mais velho. Nunca saía de suas calças de brim mineiro, do seu invariável paletó de alpaca, dos seus sapatões de bezerro e do seu chapéu do Chile. Um enorme guarda-chuva sempre debaixo do braço.
Todo ele estava a revelar a sua infância no campo, descalço, o corpo à vontade, as madrugadas feitas de pé, ao primeiro sol.
Nascera em Paquetá, onde se criou à larga com leite de jumenta, e onde residiu até a ocasião de perder o pai, um afamado e rico mestre de obras, português, antigo, econômico e ríspido, que, ao morrer lhe legou uma dúzia de prédios bem edificados, alguns terrenos, que mais tarde valeriam muito, e o inestimável hábito de ganhar a vida.
Borges sucedeu ao pai no trabalho, fez-se construtor como ele, e, em poucos anos, tornou-se um dos proprietários mais ricos da Corte. Todavia, o muito dinheiro, se não conseguiu fazer dele um extravagante, muito menos logrou precipitá-lo no orgulho e na avareza - o coração do bom homem continuou tão franqueado às virtudes, quanto sua bolsa fechada às loucuras e às vaidades.
Além desses dotes, tinha uma saúde de ferro e dispunha de uma força física de tal ordem, que se tornou legendária entre as pessoas que o conheciam de perto.
Citavam anedotas a esse respeito: um dia, estando a administrar umas obras, escapara dos andaimes um dos pedreiros, e o Borges apanhou-o no ar, como quem apanha um chapéu de palha, outra vez, tratando-se de safar um pobre diabo, que ficara entalado entre uma andorinha e uma parede - o nosso Borges arranjou um ponto de apoio, meteu os ombros contra a andorinha, e esta virou e caiu imediatamente para o lado oposto.
E como estes, muitos outros fatos, verdadeiros ou não, corriam de boca em boca, a respeito do possante mestre de obras.
Verdade é que bastava observar aquela carne transpirante e sadia, aqueles pulsos rijos e cabeludos, aquele peito largo, aquele pescoço nervoso e duro, para que a gente fizesse logo uma idéia justa do que seria capaz o Borges em matéria de força muscular.
Contudo, ninguém era menos amigo de questões. Nunca se metia em barulho; às vezes até, coitado, suportava em silêncio certos desaforos: mas também, quando lhe chegasse a mostarda ao nariz, o contendor podia entregar o seu ao boticário, porque o esborrachamento havia de ser memorável.
Devido a essa pujança excepcional, davam-lhe a alcunha significativa de João Touro.
João Touro era geralmente tido e havido pelo mais completo modelo de bondade e de bom senso. Ninguém lhe fosse pedir manifestações brilhantes de talento, concepções artísticas, descobertas científicas; ele, coitado! não era "homem de estudos" e nunca também lhe "puxaram muito pela memória". Aos doze anos saíra da aula de primeiras letras para se meter logo no trabalho; mas tinha muito "bom pensar" e um tino admirável para os negócios. Seu único vício consistia no rapezinho Paulo Cordeiro - nada de charutos!! - nada de bebidas! - e grande aversão às mulheres que não fossem tão puras como ele.

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