|
FEITOS
DE MEM DE SÁ
José de Anchieta
PADRE
JOSÉ DE ANCHIETA
DE GESTIS MENDI DE SAA
PRAESIDIS IN BRAIILLIA
JESUS
A MEM DE SÁ GOVERNADOR
Epístola Dedicatória
Eis que vês, potentado
supremo, quão grande façanha
realizou a força do onipotente Deus.
O indômito Brasil já
seus anchos orgulhos
depôs, e tombou, rendido às tuas
armas.
O que dantes, furioso, semeava
ruínas e guerras,
aprecia os fatores de redentora paz.
O que dantes vivia escondido
em sombrias florestas
aos templos do Senhor, já pressuroso corre.
O que há pouco, cão
feroz, roía ossos humanos,
sacia com o Pão dos Anjos o coração
já manso.
O que há pouco de
fauces sedentas, sugava o sangue fraterno
voa a desalterar-se nos mananciais divinos.
Foi a própria Onipotência
que robusteceu os teus golpes
e prostrou a teus pés as inimigas hostes
Vês como de nada vales
a esses ninhos altivos de pedra
toda a estratégia das posições
achadas.
Inexpugnáveis embora
à força humana as ameias erguidas
pelo hábil francês no cimo dessa
penha,
Aquele que rege com seu braço
o universo estrelado
e pode com um aceno volvê-lo e revolvê-lo,
franqueou-te, ó vencedor,
o forte de rochas horrendas
e a soberba de sua mole sob os teus pés
meteu,
nem sofreu te barrassem o
passo as flechas aladas
nem as balas que vomita a poderosa pólvora,
nem tão os pelouros
que pelos ares arrota
com tremendo fragor o ventre do canhão.
Quando já te faltavam
as forças e tua esquadra cedia
desfalcada pelo baque de muitos de teus heróis.
Quando já se acabara
a pólvora que alimenta o incêndio
e que ao fogo voraz vem provocar as iras:
Jesus compadecido olhou-te
das alturas celestes
e veio ele próprio a estender-te a mão.
Rendido às tuas preces,
ele ouviu teus pedidos,
incutiu terror e pôs o inimigo em fuga.
Já no intimo peito
podes fruir gozos nunca provados:
é a quadra formosa duma alegria nova.
Já podes exultar entre
os vivas deste egrégio triunfo:
esta palma ergue-te o nome ao apogeu da glória.
Glorifica ao Senhor, que
com seu braço invencível
esmagou os inimigos e seus fortins ativos.
Só a ele pertence
derrubar sanguinários tiranos
calcar ao chão os maus, erguer ao céu
os bons.
Aspira aos fulgores, que
inundam o palácio celeste,
se é que o amor da glória teu coração
enleia.
Bem sabes que o brilho fementido
do mundo
foge ligeiro e leve, e se desfaz na fuga.
Como se esvai pelas fendas
da jarra partida
o líquido, e baldado é procurar
enchê-la.
Assim a honra fugaz, como
água, flui e se escapa
por entre os dedos que segurá-la tentam.
Se te deres ao lazer
silencioso de revolver em teu peito
as empresas heróicas dos generais famosos,
|