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EURICO,
O PRESBÍTERO
Alexandre Herculano
I
- OS VISIGODOS
A um tempo toda a raça
goda, soltas as rédeas do governo, começou
a inclinar o ânimo para a lascívia
e soberba.
Monge de Silos Chronicon,
c. 2.
A raça dos visigodos,
conquistadora das Espanhas, subjugara toda a Península
havia mais de um século. Nenhuma das tribos
germânicas que, dividindo entre si as províncias
do império dos césares, tinham tentado
vestir sua bárbara nudez com os trajos
despedaçados, mas esplêndidos, da
civilização romana soubera como
os godos ajuntar esses fragmentos de púrpura
e ouro, para se compor a exemplo de povo civilizado.
Leovigildo expulsara da Espanha quase que os derradeiros
soldados dos imperadores gregos, reprimira a audácia
dos francos, que em suas correrias assolavam as
províncias visigóticas d'além
dos Pireneus, acabara com a espécie de
monarquia que os suevos tinham instituído
na Galécia e expirara em Toletum depois
de ter estabelecido leis políticas e civis
e a paz e ordem públicas nos seus vastos
domínios, que se estendiam de mar a mar
e, ainda, transpondo as montanhas da Vascônia,
abrangiam grande porção da antiga
Gália narbonense.
Desde essa época,
a distinção das duas raças,
a conquistadora ou goda e a romana ou conquistada,
quase desaparecera, e os homens do norte haviam
se confundido juridicamente com os do meio dia
em uma só nação, para cuja
grandeza contribuíra aquela com as virtudes
ásperas da Germânia, esta com as
tradições da cultura e polícia
romanas. As leis dos césares, pelas quais
se regiam os vencidos, misturaram se com as singelas
e rudes instituições visigóticas,
e já um código único, escrito
na língua latina, regulava os direitos
e deveres comuns quando o arianismo, que os godos
tinham abraçado abraçando o evangelho,
se declarou vencido pelo catolicismo, a que pertencia
a raça romana. Esta conversão dos
vencedores à crença dos subjugados
foi o complemento da fusão social dos dois
povos. A civilização, porém,
que suavizou a rudeza dos bárbaros era
uma civilização velha e corrupta.
Por alguns bens que produziu para aqueles homens
primitivos, trouxe lhes o pior dos males, a perversão
moral. A monarquia visigótica procurou
imitar o luxo do império que morrera e
que ela substituíra. Toletum quis ser a
imagem de Roma ou de Constantinopla. Esta causa
principal, ajudada por muitas outras, nascidas
em grande parte da mesma origem, gerou a dissolução
política por via da dissolução
moral.
Debalde muitos homens de
gênio revestidos da autoridade suprema tentaram
evitar a ruína que viam no futuro: debalde
o clero espanhol, incomparavelmente o mais alumiado
da Europa naquelas eras tenebrosas e cuja influência
nos negócios públicos era maior
que a de todas as outras classes juntas, procurou
nas severas leis dos concílios, que eram
ao mesmo tempo verdadeiros parlamentos políticos,
reter a nação que se despenhava.
A podridão tinha chegado ao âmago
da árvore, e ela devia secar. O próprio
clero se corrompeu por fim. O vício e a
degeneração corriam soltamente,
rota a última barreira.
Foi então que o célebre
Roderico se apossou da coroa. Os filhos do seu
predecessor Vítiza, os mancebos Sisebuto
e Ebas, disputaram lha largo tempo; mas, segundo
parece dos escassos monumentos históricos
dessa escura época, cederam por fim, não
à usurpação, porque o trono
gótico não era legalmente hereditário,
mas à fortuna e ousadia do ambicioso soldado,
que os deixou viver em paz na própria corte
e os revestiu de dignidades militares. Daí,
se dermos crédito a antigos historiadores,
lhe veio a última ruína na batalha
do rio Críssus ou Guadalete, em que o império
gótico foi aniquilado.
No meio, porém, da
decadência dos godos, algumas almas conservavam
ainda a têmpera robusta dos antigos homens
da Germânia. Da civilização
romana elas não haviam aceitado senão
a cultura intelectual e as sublimes teorias morais
do cristianismo. As virtudes civis e, sobretudo,
o amor da pátria tinham nascido para os
godos logo que, assentando o seu domínio
nas Espanhas, possuíram de pais a filhos
o campo agricultado, o lar doméstico, o
templo da oração e o cemitério
do repouso e da saudade. Nestes corações,
onde reinavam afetos ao mesmo tempo ardentes e,
profundos, porque neles a índole meridional
se misturava com o caráter tenaz dos povos
do norte, a moral evangélica revestia esses
afetos de uma poesia divina, e a civilização
ornava os de uma expressão suave, que lhes
realçava a poesia. Mas no fim do século
sétimo eram já bem raros aqueles
em quem as tradições da cultura
romana não havia subjugado os instintos
generosos da barbaria germânica e a quem
o cristianismo fazia ainda escutar o seu verbo
íntimo, esquecido no meio do luxo profano
do clero e da pompa insensata do culto exterior.
Uma longa paz com as outras nações
tinha convertido a antiga energia dos godos em
alimento das dissensões intestinas, e a
guerra civil, gastando essa energia, havia posto
em lugar dela o hábito das traições
covardes, das vinganças mesquinhas, dos
enredos infames e das abjeções ambiciosas.
O povo, esmagado debaixo do peso dos tributos,
dilacerado pelas lutas dos bandos civis, prostituído
às paixões dos poderosos, esquecera
completamente as virtudes guerreiras de seus avós.
As leis de Vamba e as expressões de Ervígio
no duodécimo concílio de Toletum
revelam quão fundo ia nesta parte o cancro
da degeneração moral das Espanhas.
No meio de tantos e tão cruéis vexames
e padecimentos, o mais custoso e aborrecido de
todos eles para os afeminados descendentes dos
soldados de Teodorico, de Torismundo, de Teudes
e de Leovigildo era o vestir as armas em defensão
daquela mesma pátria que os heróis
visigodos tinham conquistado para a legarem a
seus filhos, e a maioria do povo preferia a infâmia
que a lei impunha aos que recusavam defender a
terra natal aos riscos gloriosos dos combates
e à vida fadigosa da guerra.
Tal era, em resumo,
o estado político e moral da Espanha na
época em que aconteceram os sucessos que
vamos narrar.
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