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DONA
GUIDINHA DO POÇÓ
Manuel de Oliveira Paiva
LIVRO PRIMEIRO
I
De primeiro havia na ribeira
do Curimataú, afluente do Jaguaribe, uma
fazenda chamada Poço da Moita. Situada
no século passado pelo português
Reginaldo Venceslau de Oliveira, passou a filhos
e netos. Se não fora o desgraçado
acontecimento que serve de assunto principal desta
narrativa, ainda hoje estaria de pé com
ferro e sinal.
À margem esquerda do impetuoso escoadouro
hibernino, a casa grande amostrava-se num alto,
de onde se enxergava grande distância em
derredor, principalmente pela seca. Durante o
inverno, a superabundância de folhagem restringia
sensivelmente o campo de visão. Para leste
via-se uma série de colinas que faziam
o sol aparecer mais tarde. Divulgava-se para o
sul, que era o lado da frente, um pico azul, o
serrote de Meruanha; e para o ocaso, bem no horizonte,
mais una três ou quatro dentes das serras
do Batista e do Papagaio, que abriam um boqueirão
ao rio Curimataú.
Poço da Moita por último passara
para Margarida, a primeira neta do Reginaldo,
filha do Capitão-Mor, casada com o Major
Joaquim Damião de Barros, um homenzarrão
alto e grosso, natural de Pernambuco - uma boa
alma. Viera ao Ceará à compra de
cavalos, e por cá se ficou amarrado aos
amores e aos possuídos da muito conhecida
Guidinha do Poço. Tinha o preto do olho
amarelo, com a menina esverdeada, semelhando um
tapuru.
Não seja para admirar a seqüência,
logo ali assim, de dois postos militares, capitão-mor
e major. Mais virão. E quase tantos sejam
os homens de gravata, que este acanhado verbo
por aqui vá pondo de pé, quantas
as patentes. Era antigo vezo. Não que militares
fossem de índole, nem de prosápia:
alguns o foram de crueldade. Todavia, desculpe-se-lhes
a fonfança pela tendência natural
que temos todos nós de nos enfileirarmos
aí numa qualquer ordem, que distinga. E
eles, os matutos, coitados, não sobressaíam
pela profissão nem pela cultura.
Outro motivo para explicar o alto preço
com que encareciam os barateados títulos,
outorgados pela munificência administrativa,
seria a persistência dos costumes portugueses
onde tudo que descia del-rei era como se de Deus
viera. A consciência republicana não
se adunara ainda com aquela vida rural, em pleno
ar, sob um céu ardente e oco, em uma natureza
incerta, que arrasta o homem a precisar de uma
Providência divina e de outra humana, e
o impele noite e dia para o amor, esse ócio,
em incessante desequilíbrio com as outras
necessidades. Daí, numa tendência
monoteísta e monárquica, Deus e
o vigário, o rei e o presidente.
Margarida, isto é, a Guidinha, apesar de
sua princesia, não casou tão cedo
como era de supor. Parece que primeiro quis desfrutar
a vidoca. Seu pai, o segundo Venceslau, capitão-mor
da vila, possuía largas fortuna em gados,
terras, ouro, escravos... Fora um rico e um mandão.
Aqui vai o resumo de uma relação
ou nota do que se lhe achou, imperfeita e truncada
como o são geralmente os inventários,
mas autêntica, encontrada num alfarrábio
do Padre Costinha, quase ilegível:
OURO
Moedas de ouro de 20$ e de 40$ (estava apagado
o algarismo).
Pares de fivelas de ouro cortado, 40 oitavas (a
2$500 a oitava).
Idem, pequenas, 34 oitavas.
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