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O Chalaça
- Favorito do Império
Assis Cintra
Compilado por Edilberto Pereira
Leite
Explicação
Histórica
A biografia
do Chalaça tem várias fontes:
1a - Os seus
livros publicados;
2a - A biografia feita pelo seu herdeiro Dr. Francisco
Gomes da Silva Filho;
3a - A biografia feita por Pinheiro Chagas;
4a - A biografia feita por R. Mendes Brito;
5a - A biografia feita por Antonio Sampaio de
Almeida.
O episódio "Nos degraus do trono",
é por demais conhecido através de
vários escritores; no capítulo "O
pacto diabólico", foram aproveitadas
revelações feitas numa carta pelo
Marquês de Barbacena e o relato de Clemente
de Oliveira, panfletário do "Brasil
Aflito" e "Tumores dos Braganças".
O que se lê no "Um capítulo
de História" é trabalho de
dois historiadores, o português F. Chagas
e o brasileiro P. Silva. Se houver exageros, são
desses dois cronistas e não meus, que apenas
reproduzi o que eles escreveram.
O "Romance
do Chalaça", onde aparecem os amores
do favorito, também não é
invenção minha. Eu reproduzi essa
narrativa, modificando-a na linguagem, tirando-lhe
o feitio arcaico, de umas crônicas da vida
colonial do escritor antigo N. Azevedo. Se há
mentiras nessas histórias de amor do Chalaça,
as mentiras são do Azevedo, que outrora
as vulgarizou, e não minhas, que hoje as
reproduzo como simples gramofone de velhas crônicas.
Chalaça,
com a iniciais F.G.S., publicou a história
dos seus dois amores, e Azevedo as aproveitou.
Há
neste livro três afirmações
muito pouco conhecidas e que podem causar espanto:
1a - Que a
Marquesa de Santos foi amante do Chalaça
e que com ele se associou para juntos explorarem
o governo;
2a - Que o
Chalaça era filho do Visconde de Vila Nova
da Rainha e não do ourives da Casa Real;
3a – Que o
Chalaça se casou com a viuva de Dom Pedro
I, a Duquesa de Bragança, em casamento
secreto, do qual teve uma filha, que foi esposa
de um banqueiro americano e depois de um oficial
prussiano.
Quanto aos
amores da Marquesa com o Chalaça, isso
é do livro de Clemente de Oliveira, "Tumores
dos Braganças "; o caso da paternidade
atribuída ao Visconde de Vila Nova da Rainha,
é da biografia feita por Sampaio de Almeida;
e o casamento secreto com a neta de Josefina Bonaparte,
é do interessantíssimo livro de
Pierre Renaudin, publicado em 1875 – "Les
amours de la famille Bonaparte". Ali ele
conta o que digo no primeiro capítulo deste
livro.
Afinal, o
que se vai ler não é meu; é
dos outros, é de gente antiga que escreveu
essas coisas.
Neste livro,
eu fui apenas um copista. Copista também
fui nos livros "As Amantes do Imperador"
e "Carlota Joaquina".
Se houver
xingamentos contra mim, que eles recaiam nas cabeças
dos historiadores bisbilhoteiros dos tempos antigos,
gente que já está purgando nas profundezas
dos infernos o feio pecado de revelar segredos
de pessoas notáveis.
Eles escreveram:
pecado mortal ; eu copiei: pecado venial.
E, por um
pecado venial cristão não vai para
o inferno.
Entretanto,
se é preciso que por este livro alguém
pague o pato, que seja esse condenado o Koogan,
da "Editora Guanabara".
Assis
Cintra
Quem
foi o Chalaça?
Francisco
Gomes da Silva, que morreu como conselheiro do
Império e Conde de Ourem, foi uma das interessantes
figuras que viveram nas intrigas palacianas da
Corte de D. João VI e Pedro I.
Alegre, pilhérico,
mulherengo, sua popularidade era filha do seu
gênio folgazão, das suas atitudes
chalaceantes, da sua astucia invencível.
Teve duas alcunhas: a de "bom conhecido "
e "Chalaça ". Foi com esta última
que entrou para a história do Brasil.
O português
Antonio Gomes da Silva, ourives da Casa Real,
deu-lhe o nome, perfilhando-o e legitimando-o,
a pedido do Visconde de Vila Nova da Rainha, que
era o verdadeiro pai. Essa legitimação,
que custou 8.000 cruzados ao Visconde, foi conseqüência
do contrato de casamento do fidalgo com a filha
do Conde de Resende, que exigia, preliminarmente,
que o noivo se desfizesse do garoto, que até
então se criava na sua casa com regalias
de filhote de raça. A mãe, que o
deu à luz em Lisboa, em 22 de setembro
de 1791, era uma aldeã, robusta e formosa
cachopa de 19 anos, serviçal de quarto
da família do visconde donjuanesco. Maria
da Conceição Alves, a moçoila
seduzida, registrou o produto dos seus amores
como filho de pais incógnitos. E quando
a condessinha de Resende, a graciosa e senhoril
d. Inês, se deixou vencer pelos enleios
amorosos do titular de Vila Nova da Rainha, exigiu-lhe
a remessa da rapariga para a África e o
afastamento do menino, então com oito anos
de idade, para longe de Lisboa. E foi assim que
o fidalgo, conseguindo do seu protegido Antonio
Gomes a obrigação de legitimar a
criança mediante um ajutório de
8.000 cruzados, ainda arranjou de lambujem, para
o testa de ferro "sui-generis", o emprego
de ourives da casa real.
Chalaça
foi preparar-se para padre (e que padre sairia
ele!) no Seminário de Santarém,
sob os auspícios e proteção
do Visconde. Em Santarém foi coroinha,
recebeu as primeiras letras, estudou filosofia
e latim, enfronhou-se em francês, inglês,
italiano e espanhol, línguas que falava
corretamente na sua idade madura.
Estava em
vésperas de se ordenar, quando soube dos
preparativos da Corte para a evasão vergonhosa
de 1807. Brigou com o reitor e com o padre-mestre
da disciplina do seu seminário de Santarém,
e viajou com destino à capital. Preso por
uma escolta francesa, foi levado diante de Junot,
aquartelado em Abrantes, a 22 léguas de
Lisboa. Condenado como espião ia ser fuzilado,
quando o acaso lhe permitiu uma fuga rocambolesca,
chegando, esbaforido, no cais de embarque de Lisboa,
justamente na manhã em que o Príncipe
Regente e os 15.000 portugueses da comitiva se
punham em navios fugindo de Junot. E com a Corte
fujona de D. João VI chegou ao Rio de Janeiro.
No Rio, em
1808, trabalhou com o seu pai "nominal",
o ourives Antonio Gomes, estabelecido com oficina
na rua Direita. Indispondo-se com o velho por
causa das serenatas e desordens, armou na rua
do Piolho (depois da Carioca), uma lojinha de
barbeiro, dentista e sangrador, com aplicações
de bichas e ventosas. Amancebando-se com a famosa
Maria Pulquéria, vulgo "Maricota Corneta",
dona de uma hospedaria da rua da Viola (depois
Teófilo Ottoni), dali saiu, em 1809, para
se associar com Sebastião Cauler num botequim
do largo do paço, junto do arco dos Teles.
Em 1810, conseguiu
que o seu nome fosse incluído na lista
de criados honorários do Paço.
Em 1811, foi
nomeado por D. João como moço de
reposteiro do palácio.
Em 1812 foi
agraciado com o "Hábito de Cristo",
por serviços reservados prestados ao Príncipe
Regente.
Em 1816 recebeu
o rendoso emprego de juiz da balança da
Casa da Moeda.
Protegido
por D. João, tornou-se pouco tempo depois
o favorito de D. Pedro, que fez dele um companheiro
de aventuras noturnas.
Em 1817 sofreu
um sério revés na sua vida: pilhado
em flagrante delito de amor com uma dama do Paço,
Eugênia de Castro, dentro da própria
residência real, foi expulso do serviço
de D. João e exilado para uma distância
de 10 léguas do Rio de Janeiro. Abrigou-se
em Itaguaí, na casa do vigário,
que fora seu colega no Seminário de Santarém.
Depois, a
pedido do Visconde de Vila Nova e por serviços
de caráter reservado (1), foi readmitido
no Paço.
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