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O Chalaça - Favorito do Império
Assis Cintra
Compilado por Edilberto Pereira Leite
VirtualBooks
Formato:e-book/ PDF
Código:didh00004
© VirtualBooks 2000
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Trechos do livro eletrônico

O Chalaça - Favorito do Império
Assis Cintra

Compilado por Edilberto Pereira Leite

Explicação Histórica

A biografia do Chalaça tem várias fontes:

1a - Os seus livros publicados;
2a - A biografia feita pelo seu herdeiro Dr. Francisco Gomes da Silva Filho;
3a - A biografia feita por Pinheiro Chagas;
4a - A biografia feita por R. Mendes Brito;
5a - A biografia feita por Antonio Sampaio de Almeida.
O episódio "Nos degraus do trono", é por demais conhecido através de vários escritores; no capítulo "O pacto diabólico", foram aproveitadas revelações feitas numa carta pelo Marquês de Barbacena e o relato de Clemente de Oliveira, panfletário do "Brasil Aflito" e "Tumores dos Braganças". O que se lê no "Um capítulo de História" é trabalho de dois historiadores, o português F. Chagas e o brasileiro P. Silva. Se houver exageros, são desses dois cronistas e não meus, que apenas reproduzi o que eles escreveram.

O "Romance do Chalaça", onde aparecem os amores do favorito, também não é invenção minha. Eu reproduzi essa narrativa, modificando-a na linguagem, tirando-lhe o feitio arcaico, de umas crônicas da vida colonial do escritor antigo N. Azevedo. Se há mentiras nessas histórias de amor do Chalaça, as mentiras são do Azevedo, que outrora as vulgarizou, e não minhas, que hoje as reproduzo como simples gramofone de velhas crônicas.

Chalaça, com a iniciais F.G.S., publicou a história dos seus dois amores, e Azevedo as aproveitou.

Há neste livro três afirmações muito pouco conhecidas e que podem causar espanto:

1a - Que a Marquesa de Santos foi amante do Chalaça e que com ele se associou para juntos explorarem o governo;

2a - Que o Chalaça era filho do Visconde de Vila Nova da Rainha e não do ourives da Casa Real;

3a – Que o Chalaça se casou com a viuva de Dom Pedro I, a Duquesa de Bragança, em casamento secreto, do qual teve uma filha, que foi esposa de um banqueiro americano e depois de um oficial prussiano.

Quanto aos amores da Marquesa com o Chalaça, isso é do livro de Clemente de Oliveira, "Tumores dos Braganças "; o caso da paternidade atribuída ao Visconde de Vila Nova da Rainha, é da biografia feita por Sampaio de Almeida; e o casamento secreto com a neta de Josefina Bonaparte, é do interessantíssimo livro de Pierre Renaudin, publicado em 1875 – "Les amours de la famille Bonaparte". Ali ele conta o que digo no primeiro capítulo deste livro.

Afinal, o que se vai ler não é meu; é dos outros, é de gente antiga que escreveu essas coisas.

Neste livro, eu fui apenas um copista. Copista também fui nos livros "As Amantes do Imperador" e "Carlota Joaquina".

Se houver xingamentos contra mim, que eles recaiam nas cabeças dos historiadores bisbilhoteiros dos tempos antigos, gente que já está purgando nas profundezas dos infernos o feio pecado de revelar segredos de pessoas notáveis.

Eles escreveram: pecado mortal ; eu copiei: pecado venial.

E, por um pecado venial cristão não vai para o inferno.

Entretanto, se é preciso que por este livro alguém pague o pato, que seja esse condenado o Koogan, da "Editora Guanabara".

Assis Cintra


Quem foi o Chalaça?

Francisco Gomes da Silva, que morreu como conselheiro do Império e Conde de Ourem, foi uma das interessantes figuras que viveram nas intrigas palacianas da Corte de D. João VI e Pedro I.

Alegre, pilhérico, mulherengo, sua popularidade era filha do seu gênio folgazão, das suas atitudes chalaceantes, da sua astucia invencível. Teve duas alcunhas: a de "bom conhecido " e "Chalaça ". Foi com esta última que entrou para a história do Brasil.

O português Antonio Gomes da Silva, ourives da Casa Real, deu-lhe o nome, perfilhando-o e legitimando-o, a pedido do Visconde de Vila Nova da Rainha, que era o verdadeiro pai. Essa legitimação, que custou 8.000 cruzados ao Visconde, foi conseqüência do contrato de casamento do fidalgo com a filha do Conde de Resende, que exigia, preliminarmente, que o noivo se desfizesse do garoto, que até então se criava na sua casa com regalias de filhote de raça. A mãe, que o deu à luz em Lisboa, em 22 de setembro de 1791, era uma aldeã, robusta e formosa cachopa de 19 anos, serviçal de quarto da família do visconde donjuanesco. Maria da Conceição Alves, a moçoila seduzida, registrou o produto dos seus amores como filho de pais incógnitos. E quando a condessinha de Resende, a graciosa e senhoril d. Inês, se deixou vencer pelos enleios amorosos do titular de Vila Nova da Rainha, exigiu-lhe a remessa da rapariga para a África e o afastamento do menino, então com oito anos de idade, para longe de Lisboa. E foi assim que o fidalgo, conseguindo do seu protegido Antonio Gomes a obrigação de legitimar a criança mediante um ajutório de 8.000 cruzados, ainda arranjou de lambujem, para o testa de ferro "sui-generis", o emprego de ourives da casa real.

Chalaça foi preparar-se para padre (e que padre sairia ele!) no Seminário de Santarém, sob os auspícios e proteção do Visconde. Em Santarém foi coroinha, recebeu as primeiras letras, estudou filosofia e latim, enfronhou-se em francês, inglês, italiano e espanhol, línguas que falava corretamente na sua idade madura.

Estava em vésperas de se ordenar, quando soube dos preparativos da Corte para a evasão vergonhosa de 1807. Brigou com o reitor e com o padre-mestre da disciplina do seu seminário de Santarém, e viajou com destino à capital. Preso por uma escolta francesa, foi levado diante de Junot, aquartelado em Abrantes, a 22 léguas de Lisboa. Condenado como espião ia ser fuzilado, quando o acaso lhe permitiu uma fuga rocambolesca, chegando, esbaforido, no cais de embarque de Lisboa, justamente na manhã em que o Príncipe Regente e os 15.000 portugueses da comitiva se punham em navios fugindo de Junot. E com a Corte fujona de D. João VI chegou ao Rio de Janeiro.

No Rio, em 1808, trabalhou com o seu pai "nominal", o ourives Antonio Gomes, estabelecido com oficina na rua Direita. Indispondo-se com o velho por causa das serenatas e desordens, armou na rua do Piolho (depois da Carioca), uma lojinha de barbeiro, dentista e sangrador, com aplicações de bichas e ventosas. Amancebando-se com a famosa Maria Pulquéria, vulgo "Maricota Corneta", dona de uma hospedaria da rua da Viola (depois Teófilo Ottoni), dali saiu, em 1809, para se associar com Sebastião Cauler num botequim do largo do paço, junto do arco dos Teles.

Em 1810, conseguiu que o seu nome fosse incluído na lista de criados honorários do Paço.

Em 1811, foi nomeado por D. João como moço de reposteiro do palácio.

Em 1812 foi agraciado com o "Hábito de Cristo", por serviços reservados prestados ao Príncipe Regente.

Em 1816 recebeu o rendoso emprego de juiz da balança da Casa da Moeda.

Protegido por D. João, tornou-se pouco tempo depois o favorito de D. Pedro, que fez dele um companheiro de aventuras noturnas.

Em 1817 sofreu um sério revés na sua vida: pilhado em flagrante delito de amor com uma dama do Paço, Eugênia de Castro, dentro da própria residência real, foi expulso do serviço de D. João e exilado para uma distância de 10 léguas do Rio de Janeiro. Abrigou-se em Itaguaí, na casa do vigário, que fora seu colega no Seminário de Santarém.

Depois, a pedido do Visconde de Vila Nova e por serviços de caráter reservado (1), foi readmitido no Paço.

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