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CASA
DE PENSÃO
Aluísio Azevedo
I
Seriam onze horas
da manhã.
O Campos, segundo o costume, acabava de descer
do almoço e, a pena atrás da orelha,
o lenço por dentro do colarinho, dispunha-se
a prosseguir no trabalho interrompido pouco antes.
Entrou no seu escritório e foi sentar-se
à secretária.
Defronte dele, com uma gravidade oficial, empilhavam-se
grandes livros de escrituração mercantil.
Ao lado, uma prensa de copiar, um copo de água,
sujo de pó, e um pincel chato; mais adiante,
sobre um mocho de madeira preta, muito alto, via-se
o Diário deitado de costas e aberto de
par em par.
Tratava-se de fazer a correspondência para
o Norte. Mal, porém, dava começo
a uma nova carta, lançando cuidadosamente
no papel a sua bonita letra, desenhada e grande,
quando foi interrompido por um rapaz, que da porta
do escritório lhe perguntou se podia falar
com o Sr. Luís Batista de Campos.
- Tenha bondade de entrar, disse este.
O rapaz aproximou-se das grandes de cedro polido
que o separavam do comerciante.
Era de vinte anos, tipo do Norte, franzino, amorenado,
pescoço estreito, cabelos crespos e olhos
vivos e penetrantes se bem que alterados por um
leve estrabismo.
Vestia casimira clara, tinha um alfinete de esmeralda
na camisa, um brilhante na mão esquerda
e uma grossa cadeia de ouro sobre o ventre. Os
pés, coagidos em apertados sapatinhos de
verniz, desapareciam-lhe casquilhamente nas amplas
bainhas da calça.
- Que deseja o senhor? perguntou Campos, metendo
de novo a pena atrás da orelha e pousando
um pedaço de papel mata-borrão sobre
o trabalho.
O moço avançou dois passos, com
ar muito acanhado, o chapéu de pelo seguro
por ambas as mãos, a bengala debaixo do
braço.
- Desejo entregar esta carta, disse, cada vez
mais atrapalhado com o seu chapéu e a sua
bengala, sem conseguir tirar da algibeira um grosso
maço de papéis que levava.
Não havia onde pôr o maldito chapéu,
e a bengala tinha-lhe já caído no
chão, quando Campos foi em seu socorro.
- Cheguei hoje do Maranhão, acrescentou
o provinciano, sacando as cartas finalmente.
As últimas palavras do moço pareciam
interessar deveras o negociante, porque este,
logo que as ouviu, passou a considerá-lo
da cabeça aos pés, e exclamou depois:
- Ora espere... O senhor é o Amâncio!
O outro sorriu, e, entregando-lhe a carta, pediu-lhe
com um gesto que a lesse.
Não foi preciso romper o sobrescrito, porque
vinha aberta.
- É de meu pai... disse Amâncio.
- Ah! é do velho Vasconcelos?... Como vai
ele?
- Assim, assim... O que o atrapalha mais é
o reumatismo. Agora está em uso da Salça-ecaroba,
do Holanda.
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