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JOAQUIM
MARIA MACHADO DE ASSIS nasceu no Rio de
Janeiro, a 21 de junho de 1839 e faleceu na mesma
cidade, em 29 de setembro de 1908. Filho de mulato,
brasileiro, e de branca, portuguesa; era gago,
epiléptico, pobre, é por causa disto
não pôde estudar em escolas e tornou-se
um grande autodidata.
Colaborou na revista "Marmota
Fluminense", foi aprendiz de tipógrafo
na Imprensa Nacional, onde conheceu seu protetor,
Manuel Antonio de Almeida; foi revisor de provas
na Editora Paula Brito e no "Correio Mercantil"
e colaborador em vários jornais e revistas
da época.
Na imprensa publicou vários
contos, crônicas, folhetins, artigos de
crítica, muitos dos quais assinados com
pseudônimos: Platão, Gil, Lara, Dr.
Semana, Job, M.A., Max Manassés e outros.
Casou-se em 1869 com D. Carolina
Novais, que veio dar mais inspiração
à sua vida literária. Em 1904, quando
D. Carolina morreu, ainda inspirou o mais belo
soneto de sua producão: "A Carolina",
publicado no livro "Relíquias de Casa
Velha":
"Querida, ao pé
do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração de companheiro.
"Pulsa-lhe- aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.
"Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
"Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vívidos".
Foi o primeiro presidente
da Academia Brasileira de Letras, em 1897.
Poesias:
"Crisálidas", (1864); "Falenas",
"Americanas".
Romances:
"Ressurreição", "A
Mão e a Luva", "Helena",
"Iaiá Garcia".
Contos:
"Contos Fluminenses", "Histórias
da Meia Noite", (1869).
Teatro:
"Desencantos", "0 Caminho da Porta",
"0 Protocolo", "Quase Ministro",
"Os Deuses de Casaca". Crônicas
e Críticas. Fase Realista (de 1881 a 1908)
Poesias:
"Ocidentais".
Romances:
"Memórias Póstumas de Brás
Cubas", "Quincas Borba", "Dom
Casmurro", "Esaú e Jacó",
"Memorial de Aires". Contos: "Papéis
Avulsos", "Histórias sem Data",
"Várias Histórias", "Páginas
Recolhidas", "Relíquias de Casa
Velha".
Teatro:
"Tu, só Tu, Puro Amor" "Não
Consultes Médico", "Lição
de Botânica", crônicas e críticas.
Machado de Assis é
de estilo clássico e sóbrio, com
frases curtas e bem construídas, vocabulário
muito rico e construções sintáticas
perfeitas. Sua obra é de análise
de caracteres e seus tipos são inesquecíveis
e verdadeiros. Em toda sua obra há uma
preocupação pelo adultério,
tentado ou consumado, e muito de filosofia: a
filosofia do humanitismo, que é explicada
no seu romance "Quincas Borba". Sua
técnica de composição no
romance é muito importante para a compreensão
da obra: não há homogeneidade na
extensão dos capítulos: ora curtos,
ora longos, não existe normalmente a seqüência
linear, isto é, muitas vezes um capítulo
não tem um final de ação,
que irá continuar não no imediatamente
seguinte, mas em outro um pouco distante. Esta
técnica procura prender a atenção
do leitor até o fim do livro, o que realmente
consegue.
Sem dúvida, trata-se
do mais alto escritor brasileiro de todos os tempos,
o primeiro escritor universal de nossa Literatura.
De uns tempos para cá, sua obra vem sendo
objeto de estudos em profundidade, sob ângulos
vários, constituindo-se no maior acervo
bio-bibliográfico que jamais suscitou um
escritor nacional. Sobretudo, cumpre destacar-se,
como a mais importante de sua obra, a parte de
ficção - seus contos, verdadeiras
obras-primas - e os romances a partir da fase
que se Iniciou com as "Memórias Póstumas
de Brás Cubas".
Machado de Assis não
se filia a qualquer coisa, dando apenas vazão
ao seu próprio sentimento de homem introspectivo.
É possuidor de um estilo simples, sem nenhum
artificialismo. A concisão é uma
de suas mais eloqüentes características.
Cuidou, em suas obras, mais do homem do que da
paisagem. Não foi grande poeta. Inicialmente
passou pelo romantismo e depois mostrou-se parnasiano.
Para Machado de Assis o homem é egoísta,
impassível diante da felicidade ou infelicidade
do seu semelhante. 0 sofrimento é inerente
à própria condição
humana. 0 homem sonha com a felicidade, sem suspeitar
que tudo é Ilusão. Machado aconselha
então a solidão, o Isolamento, por
não crer no solidarismo humano.
No teatro Machado de Assis
se revela como tradutor, critico e comediógrafo.
Como critico procurava exaltar os valores morais.
Para ele, "a arte pode aberrar das condições
atuais da sociedade para perder-se no mundo labiríntico
das abstrações. 0 teatro é
para o povo o que o Coro era para o antigo povo
grego: uma iniciativa de moral e civilização."
E ainda foi além.
Ressuscitando uma antiqualha dos Séculos
XVII; inovou o soneto, dando-lhe a forma contínua
do (Círculo Vicioso). Outra inovação:
a alternância do octossílabo com
o tetrassílabo, de que se utilizou nos
versos a Artur de Oliveira. Combinado o octossílabo
com o doclecassílabo, criou ainda o ritmo
dos agrupamentos da Mosca Azul. E deu em 1885
uma incomparável lição de
poesia quando, na ocasião comemorativa
do centenário do Marquês de Pombal,
publicou, sob o título de A Suprema Injúria,
uma série de quatorze sonetos, onde não
há dois iguais na sua forma.
Machado de Assis foi ainda
um técnico do verso, o admirável
tradutor de a primeira fase machadiana. 0 terceiro
romance, Helena, jovem confrade, e escreve poesia,
a quem devemos pelo o que seria diferente da já
representa uma evolução. Vai eclodir
com as Memórias Póstumas de Brás
Cubas.
No romance como na poesia,
Machado de Assis ressente-se de influencia romântica
nas primeiras obras: Ressurreição
(1872), A Mão e a Luva (1875), Helena (1876)
e Iaiá Garcia (1878). É toda romântica
a concepção dos personagens e do
entrecho; revela-se a personalidade do autor na
preocupação mais acentuada do estudo
dos caracteres. Mas as situações
que arma, para os revelar, e a própria
compreensão que deles tem, tudo trai a
visão romântica, ainda que mitigada
pela analise psicológica.
De Ressurreição,
em que a narração e linear, a língua
pobre, os caracteres de linhas definidas, a Iaiá
Garcia, onde a narrativa é dotada de maior
penetração, a língua se precisa
e os caracteres já se mostram mais complexos,
o progresso é significativo. 0 mais romanesco
dos três é Helena, a confinar por
vezes com a inverossimilhança.
Memórias
Póstumas de Brás Cubas
Brás Cubas, já
falecido, conta, do outro mundo, as suas memórias:
"Expirei em 1869, na minha bela chácara
de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos,
rijos e prósperos, era solteiro, possuía
trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério
por onze amigos". Galhofando dos ascendentes,
fala da própria genealogia. Assevera que
morreu de pneumonia apanhada quando trabalhava
num invento farmacêutico, um emplastro medicamentoso.
Virgília, sua ex-amante,
que já não via há alguns
anos, visitou-o nos últimos dias de vida.
Narra Brás Cubas um delírio que
teve durante a agonia: montado num hipopótomo
foi arrebatado por unia extensa e gelada planície,
até o alto de uma montanha, de onde divisa
a sucessão dos séculos. Além
dos pais, tiveram grande influência na educação
do pequeno Brás Cubas três pessoas:
tio João, homem de língua solta
e vida galante; tio Ildefonso, cônego, piedoso
e severo; Dona Emerenciana, tia materna, que viveu
pouco tempo. Brás passou uma infância
de menino traquinas, mimado demasiadamente pelo
pai.
Aos dezessete anos apaixona-se
por Marcela, dama espanhola, com quem teve as
primeiras experiências amorosas. Para agradar
Marcela, Brás começa a gastar demais,
assumindo compromissos graves e endividando-se.
Marcela gostava de jóias e Brás
procurava fazer-lhe todos os gostos. "Marcela
amou-me, diz Brás Cubas, durante quinze
meses e onze contos de réis". Quando
o pai tomou conhecimento dos esbanjamentos do
filho, mandou-o para a Europa: "vais cursar
uma Universidade", justificou. Em Coimbra,
Brás segue o curso jurídico e bacharela-se.
Depois, atendendo a um chamado do pai, volta ao
Rio: a mãe estava moribunda. E, de fato,
apenas chega ao Brasil, a mãe falece. Passando
uns dias na Tijuca, conhece Eugênia, moça
bonita, mas com um defeito na perna que a fazia
coxear um pouco, com ela mantém um passageiro
romance.
O pai de Brás tem
duas, ambições para o filho: quer
casá-lo e faze-lo deputado. Tudo faz para
encaminhá-lo no rumo do casamento e procura
aumentar o circulo de amigos influentes na política,
a fim de preparar o caminho para o futuro deputado.
Assim é que Brás Cubas é
apresentado ao Conselheiro Dutra que promete ajudar
ao jovem bacharel na pretendida ascensão
política.
Brás nesta altura
vem a conhecer Virgília, filha do Conselheiro
Dutra, pela qual se apaixona. Parecia, com isso,
que os sonhos do pai sobre Brás estavam
prestes a realizar-se: bem encaminhado na política
e quase noivo. Entretanto aconteceu um imprevisto:
surge Lobo Neves que não somente lhe rouba
a namorada, mas também cai nas boas graças
do Conselheiro Dutra.
Vendo assim preterido o filho,
o pai de Brás sente-se profundamente desapontado
e magoado. Veio a falecer dali a alguns meses,
de um desastre. Virgília casa-se com Lobo
Neves e, pouco tempo depois, vê eleito Deputado
o marido. Mas, na verdade, Virgília casara-se
com Lobo Neves por interesse, e ama realmente
a Brás Cubas. Virgília e Brás
principiam a encontrar-se com freqüência
e, em breve, tornam-se amantes. Lobo Neves adorava
a esposa e nela confiava inteiramente. Aliás
não tinha muito tempo para observar o que
se passava, já que estava entregue totalmente
à política.
Narra nesta altura Brás
Cubas o encontro que teve com seu ex-colega de
escola primária, Quincas Borba, que se
tornara um infeliz mendigo de rua. Depois do encontro
com Quincas, Brás percebe que o maltrapilho
lhe roubara o relógio. Os encontros amorosos
entre Virgília e Brás suscitam comentários
e mexericos dos vizinhos, amigos e conhecidos.
Por esse motivo, Brás propõe a Virgília
a fuga para um lugar distante. Virgília,
porém, pensa no marido que a ama e na família,
e sugere "uma casinha só nossa",
metida num jardim, em alguma rua escondida. A
idéia parece boa a Brás, que sai
remoendo a proposta: "uma casinha solitária,
em alguma rua escura". Virgília e
sua ex-empregada, chamada Dona Plácida,
se encarregam de adornar a casa e, aparentemente,
quem ali reside é Dona Plácida.
Ali os dois amantes se encontram sem maiores embaraços,
e sem despertarem suspeitas. Sucedeu que, de certa
feita, por motivos políticos, Lobo Neves
foi designado como presidente de uma província
e, dessa forma, teria de afastar-se com a mulher.
Brás fica desesperado e pede a Virgília
que não o abandone.
Quando tudo parece sem solução,
eis que surge Lobo Neves e, para agradar ao amigo
da família, convida-o para acompanhá-lo
como secretário. Brás aceita. Os
mexericos se tornam mais intensos e Cotrim casado
com Sabina, procura fazer ver ao cunhado que a
viagem seria uma aventura perigosa. Mais por superstição
do que pelos conselhos de Cotrim, Lobo Neves acaba
não aceitando mais o cargo de presidente,
porque o decreto de nomeação saíra
publicado no Diário oficial num dia 13:
Lobo Neves tinha pavor pelo número, um
número fatídico. Lobo Neves recebe
uma carta anônima denunciando os amores
da esposa com o amigo. Isso faz com que os dois
amantes se mostrem mais reservados, embora continuem
encontrando-se na Gamboa (onde fica a casa de
Dona Plácida).
Surge então um acontecimento
que vem alterar a situação os personagens:
Lobo neves é novamente nomeado presidente
e, desta vez, parte para o interior do país
levando consigo a esposa. Brás procura
distrair-se e esquecer a separação.
A irmã Sabina, que
vinha procurando "arranjar" um casamento
para Brás, volta a insistir em seu objetivo.
A candidata, uma moça prendada, chamava-se
Nhá-loló. Mesmo sem entusiasmo,
Brás aparenta interesse pela pretendente,
mas Nhá-loló vem a falecer durante
urna epidemia. o tempo vai passando.
Mais por distração
do que por idealismo, Brás procura um derivativo
de suas decepções amorosas na política.
Faz-se deputado e, na assembléia, vem a
encontrar-se com Lobo Neves que havia voltado
da província. Encontra-se também
com Virgília, que não tinha já
aquela beleza antiga que o havia atraído
anteriormente. Assim, por desinteresse reciproco,
chegam ao fim os amores de Brás e Virgília.
Quincas Borba, o mendigo, reaparece e lhe restitui
o relógio, passando a ser um freqüentador
da casa de Brás.
Quincas Borba estava mudado:
não era mais mendigo, recebera uma herança
de um tio em Barbacena. Virara filósofo:
havia inventado urna nova teoria filosófico-religiosa,
o Humanitismo, e não falava noutra coisa.
0 próprio Brás Cubas passa a interessar-se
muito pelas teorias de Quincas Borba. Morre, por
esse tempo, o Lobo Neves, e Virgilia "chorou
com sinceridade o marido, como o havia traído
com sinceridade". Também vem a falecer
Quincas, Borba, que havia enlouquecido completamente.
Brás Cubas deixou este mundo pouco depois
de Quincas Borba, por causa de urna moléstia
que apanhara quando tratava de um invento seu,
denominado " emplasto Brás Cubas".
E o livro conclui:
"Imaginará mal;
porque ao chegar a este outro lado do mistério,
achei-me com um pequeno saldo, que é a
derradeira negativa deste capítulo de negativas:
não tive filhos, não transmiti a
nenhuma criatura o legado de nossa miséria".
Fato narrativo em primeira
pessoa; posição trans-temporal,
a narrativa acompanha os vaivéns da memória
do narrador defunto.
Quebra da unidade estrutural
da narrativa: - forma livre, estrutura fragmentada,
ausência de um fio lógico e ausência
de um conflito central.
Drama da irremediável
tolice humana. Brás Cubas tudo tentou e
nada deixou. A vida moral e afetiva é superada
pela biologicamente satisfeita. Acomodação
cínica ao erro, ou melhor, a justificação
moral interior racionalizada. Pessimismo (influência
de Sterne, Schopenhauer, Darwin e Voltaire).
Segundo o Professor Alfredo
Bosi :
"Memórias
Póstumas de Brás Cubas"
opera um salto qualitativo na Literatura Brasileira.
"A revolução dessa obra, que
parece cavar um poço entre dois mundos,
foi uma revolução ideológica
e formal: aprofundando o desprezo às idealizações
românticas e ferindo o cerne do narrador
onisciente, que tudo vê e tudo julga, Machado
deixou emergir a consciência nua do indivíduo,
fraco e incoerente. 0 que restou foram as memórias
de um homem igual a tantos outros, o cauto e desfrutador
Brás Cubas.
Quincas Borba
Quincas Borba é um
filósofo-doido. Mais na segunda que na
primeira parte. Criou uma filosofia: Humanitas.
"Humanitas" é o princípio
único, universal, eterno, comum, indivisível
e indestrutível... Pois essa substância,
esse principio indestrutível é que
é Humanitas... " Uma guerra: duas
tribos que se encontram, frente a frente, perto
de uma plantação de batatas que
só darão para sustentar uma delas.
É a luta pelas batatas. Pela sobrevivência.
A tribo que vence, ganha as batatas. "Ao
vencedor, as batatas". Filosofia e sandice
condimentam as lições de Quincas
Borba.
0 filósofo tinha um
cão: Quincas Borba. Pusera nele o seu próprio
nome. Afinal Humanitas era comum para ele e para
o cão. E não só: se morresse
antes sobreviveria o oâo. Um cão,
meio tamanho, cor de chumbo, malhado de preto.
Um filósofo assim tinha que acabar em...
Barbacena. AI conheceu a Piedade, viúva
de parcos meios, Era irmã de Rubião.
Não se casou com o herdeiro. Rubião
foi o melhor amigo e enfermeiro do filósofo.
Quando Quincas Borba morreu,
numa incurável semidemência, na casa
de Brás Cubas, no Rio, Rubião ficou
rico, herdeiro universal do falecido filósofo.
Herdeiro de tudo. Depois em breve pendência
recebeu: casa na Corte, uma em Barcelona, escravos,
ações no Banco do Brasil e muitas
outras, jóias, dinheiro, livros, a filosofia
do morto e o seu cão Quincas Borba. A cláusula
única do testamento era tratar bem o cão.
0 novo-rico muda-se para
a Corte. Fica conhecendo o casal Palha e Sofia.
E o pobre mestre-escola fica apaixonado por ela.
Que olhos, que ombros, que braços!... Vinte
e seis anos... Cada aniversário era um
novo polimento dado pelo tempo. É bonita,
sabe que é, e sabe mostrar-se. 0 marido
gostava de mostrá-la a todos: vejam o que
são as minhas e de se mostrar . E Sofia
aprendeu logo e bem a arte se mostrar. Sofia seduz
Rubião. Engana-o... Busca o dinheiro. Ganha
presentes riquíssimos. O marido funda até
a sociedade Palha e Cia.
É o dinheiro de Rubião
que vai correndo. Muito depressa. A Sofia tem
lá os seus desejos escondidos para com
o galanteador Carlos Maria, Pobre Rubião!
0 dinheiro acabando, os amigos vão minguando,
e a loucura vai chegando. Rubião passa
pelas ruas aos gritos dos moleques ( 0 gira, ó
gira...) certo que é Napoleão III
. Metem-no num Sanatório. Rubião
foge do sanatório do Rio e vai para Barbacena.
Lá morre. E três dias depois encontraram
o cão Quincas Borba, também morto,
numa rua.
É o fim? Leitor: "eia,
chora os dois recentes, se tens lágrimas.Se
so tens risos, ri-te. É a mesma coisa.
É outra crônica de fraquezas e misérias
morais, concluída com uma filosofia desencantada,
a filosofia do Humanitas: "Ao vencedoras
batatas"... Uma súbita fortuna, uma
paixão adúltera, ambições
políticas acabam levando Rubião
à loucura. Ele, que antes era um humilde
mestre-escola, ingênuo e puro, envolve-se
em um novo mundo, violento e agressivo. A fraqueza
o destrói.
Narrado em 3a Pessoa. É
o mais objetivo dos Romances de Machado. Análise
psicológica de um homem Pobre que subitamente
fica rico e a fortuna arrasta-o à loucura.
E só a loucura salva Rubião do destino
vulgar de vaidoso rico, explorado pelos que o
cercam.
O Humanitismo: "Ao vencedor,
as batatas", pode ser interpretado como uma
paródia irônica ao positivismo e
evolucionismo. Posições filosóficas
dominantes na segunda metade do século
XIX-. É uma caricatura do princípio
da evolução e da seleção
natural que, na época, saíam do
campo da biologia para impregnar a filosofia.
DOM CASMURRO
A própria personagem
central, Bentinho, é que conta a sua história.
Pincipia dizendo que está morando, sozinho,
auxiliado por um criado, no Engenho Novo (Rio
de Janeiro), em uma casa que ele mandara construir
igual àquela em que passara a infância,
em Matacavalos. Como vive isolado, os vizinhos
apelidaram de Dom Casmurro, apelido que pegara.
A história principia quando Bentinho já
está com quinze anos e sua amiga de infância,
Capitu, com quatorze.
Os dois crescem juntos e
se estimam sinceramente. Dona Glória, mãe
de Bentinho, viúva, tendo sido infeliz
no primeiro parto, fizera a Deus uma promessa,
se fosse bem sucedida no segundo parto, o filho
seria religioso (padre ou freira, conforme o sexo)
- Por isso, estava disposta a cumprir a promessa:
Bentinho iria para o seminário.
À medida que o tempo
passa e que a amizade de Bentinho e Capitu se
transforma em namoro sério e apaixonado,
a idéia do seminário vai-se tornando
um grave problema para os dois, que buscam todas
as maneiras de evitá-lo. Justina, prima
de Dona Glória, que vivia em Casa desta,
e a quem Bentinho suplica que interceda com a
mãe em seu favor, se nega. José
Dias, velho empregado da casa, muito estimado,
diz que o problema não é fácil,
pois o melhor é, antes, "aplainar
o caminho". 0 próprio Bentinho, de
índole tímida, tenta falar com a
mãe, mas nem sequer consegue dizer-lhe
o que quer. Capitu, e Bentinho perdem as esperanças
de evitar o seminário. De qualquer modo,
amando-se sinceramente, juram que, aconteça
o que acontecer, se casarão. Bentinho irá
para o seminário, mas ficará apenas
algum tempo. Depois sairá e serão
felizes.
No seminário, Bentinho
trava conhecimento com Escobar, que se toma seu
amigo e confidente. A vida agora transcorre entre
os estudos eclesiásticos e as visitas semanais
à sua casa. Escobar em conversa com bentinho,
tem uma idéia: Dona Glória, rica
que é, poderia cumprir a promessa de outro
modo, isto é, custeando as despesas de
um seminarista pobre, ficando Bentinho livre do
seminário. A idéia vinga e Bentinho
retoma à casa. Anos depois, já formado
em Direito, casa-se com Capitu e começam
uma vida repleta de felicidades. E essa felicidade
ainda se torna maior quando Escobar, que também
saíra do seminário, casa-se com
Sancha, amiga de Capitu.
As duas famílias visitam-se
freqüentemente. Escobar e Sancha têm
uma filha, à qual dão o nome de
Capitolina (Capitu). A única tristeza (se
é que se pode chamar tristeza) é
não terem, Bentinho e Capitu, um filho.
Por isso, fazem promessas e rezam continuamente.
E o filho vem: um menino, a alegria dos pais.
Chama-se Ezequiel. Escobar vem morar mais próximo
de Bentinho e Capitu. Certo dia, Escobar se aventura
nadando pelo mar agitado e morre afogado. Sancha
retira-se para o Paraná, onde possuía
parentes.
E a vida continua, feliz.
Só uma coisa principia a preocupar cada
vez mais seriamente a Bentinho: Ezequiel, à
medida que vai crescendo, vai-se tornando uni
retrato vivo do falecido amigo. Os mesmos traços,
o mesmo cabelo, os mesmos olhos, o mesmo andar,
até os mesmos tiques. A dúvida atormenta
Bentinho, e uma infinidade de pequenas coisas
que no passado haviam passado despercebidas começam
a avolumar-se confirmando as suspeitas: Capitu
o traíra. Um dia explode com Capitu, que
não consegue encontrar meios de escusar-se.
Pelo contrário, suas desculpas confirmam
definitivamente a culpa. Bentinho leva a esposa
adúltera? e o filho de Escobar para a Suíça,
onde deles se separa. Tempos depois Capitu vem
a falecer. Ezequiel, já moço, surge
em casa de Bentinho: tornara-se a cópia
do pai. Ezequiel não pára no Brasil
e, participando de uma excursão no Oriente,
também morre.
É o término
do livro. Conclui Machado de Assis: "A minha
primeira amiga e o meu melhor amigo, tão
extremosos ambos e tão queridos, também
quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me.
A terra lhes seja leve"!
Narrado na primeira pessoa,
Bentinho (D. Casmurro), propõe-se a "ATAR
AS DUAS PONTAS DA VIDA". Ao evocar o passado,
a personagem - narrador coloca-se num ângulo
neutro de visão. Dessa maneira, pode repassar,
sem contaminá-los, episódios e situações,
atitudes e reações, acompanhadas
apenas da carga emocional correspondente ao impacto
do momento da ocorrência. Simultaneamente,
opõe a esse ângulo de reconstituição
do passado o ângulo do próprio momento
da evocação, marcado pelo desmoronamento
da ilusão de sua felicidade. Dessa forma
temos uma dupla visão da experiência,
reconstituída em termos de exposição
e de análise. A visão esfumaçada
do adultério é um dos requintes
do "Bruxo do Cosme Velho" (Machado).
Parece inspirado no drama de Otelo, de Shakespeare.
CAPITU: "olhos de ressaca",
"cigana oblíqua e dissimulada"
é a mais forte criação de
Machado. Com inalterada frieza e racionalidade
calculada vai tecendo o seu destino e também
o dos outros.
ESAÚ E JACÓ
É a história
dos gêmeos Pedro e Paulo, filhos de Natividade,
que desde o nascimento dos meninos só pensa
num futuro cheio de glória para eles. À
medida que vão crescendo, os irmãos
começam a definir seus temperamentos diversos:
são rivais em tudo. Paulo é impulsivo,
arrebatado, Pedro é dissimulado e conservador
- o que vem a ser motivo de brigas entre os dois.
Já adultos, a causa principal de suas divergências
passa a ser de ordem política - Paulo é
republicano e Pedro, monarquista. Estamos em plena
época da Proclamação da República,
quando decorre a ação do romance.
Até em seus amores,
os gêmeos são competitivos. Flora,
a moça de quem ambos gostam, se entretém
com um e outro, sem se decidir por nenhum- dos
dois: é retraída, modesta, e seu
temperamento avesso a festas e alegrias levou
o conselheiro Aires a dizer que ela era "inexplicável".
0 conselheiro é mais um grande personagem
da galeria machadiana, que reaparecerá
como memorialista no próximo e último
romance do autor: velho diplomata aposentado,
de hábitos discretos e gosto requintado,
amante de citações eruditas, muitas
vezes interpreta o pensamento do próprio
romancista.
As divergências entre
os irmãos continuam, muito embora, com
a morte de Flora, tenham jurado junto a seu túmulo
uma reconciliação perpétua.
Continuam a se desentender, agora em plena tribuna,
depois. que ambos se elegeram deputados, e só
se reconciliam ao fim do livro, com novo juramento
de amizade eterna, este feito junto ao leito da
mãe agonizante.
Narrado em terceira pessoa
pelo o Conselheiro Aires. Há referências
à situação política
do Pais, na transição Império/República.
É marcado pela ambigüidade e contradição.
Pedro e Paulo são "os dois lados da
verdade".
MEMORIAL DE AIRES
Este é o último
romance do autor. Aqui, dois idílios são
narrados paralelamente, ao longo das memórias
do conselheiro Aires, personagem surgido em Esaú
e Jacó: o do casal Aguiar e o da viúva
Fidéfia com Tristão. Trata-se de
um livro concebido em tom íntimo e delicado,
às vezes repleto de melancolia. Nele Machado
de Assis pôs muito dos últimos anos
de sua vida com Carolina, falecida quatro anos
antes da publicação. Não
há muito que contar, senão pequenos
fatos da vida cotidiana de um casal de velhos.
0 estilo é de extrema sobriedade, e o autor,
já na velhice, pretendeu com este livro
prestar um depoimento em favor da vida, ainda
que em tom de mal disfarçada tristeza e
até mesmo desolação.
Memorial de Aires (1908)
opera um verdadeiro retrocesso na obra machadiana.
Nele o romancista retorna à concepção
romântica, mitigada pelo ceticismo risonho
do conselheiro Aires. Ai se respira a mesma atmosfera
dos seus primeiros romances: os seres são
de eleição e a vida gira em torno
do amor. Distingue-o, porém, e torna-a
muito superior àqueles a mestria do ofício,
o domínio do instrumento.
Como novidade, traz
a forma de diário e o narrador não
é onisciente; observa como simples comparsa
os personagens principais, procura adivinhar-lhes
o íntimo através de suposições
próprias ou através de informações
alheias - a dar alguma idéia do processo
de Henry James, este, entretanto, muito outro,
com outras intenções e de outra
tessitura.
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