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Arras Por Foro de Espanha
(1371-1372)
Alexandre Herculano
A arraia-miúda
O sino das ave-marias ou da oração, tinha dado na torre da Sé a última badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de casas que, apinhadas à roda do castelo e como enfeixadas e comprimidas pela apertada cinta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nelas, viam-se fulgurar, aqui e acolá, as luzes interiores, enquanto as ruas, tortuosas e imundas, jaziam como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a hora dos terrores; porque durante a noite, naqueles boas tempos, a estReita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa e arriscada do que a própria Rua Nova, a mais opulenta e formosa da capital.
O que, porém, havia aí desacostumado e estranho eram o completo silêncio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o Paço de a par São Martinho, onde então residia El-Rei Dom Fernando, ao mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido agitadas as ondas populares pelo vento de Deus e que ainda esse mar revolto não tinha inteiramente caído na calmaria e sonolência que vem após a procela.
E assim era, com efeito, como o leitor poderá averiguar por seus próprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarçado quiser entrar connosco na mui afamada e antiga taberna do velho Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da Sé, na rua que sobe para os Paços da Alcáçova, sete ou oito portas acima dos Paços do Concelho.
A taberna de micer Folco Taca, genovês que viera a Portugal ainda
impúbere, como pajem de armas de famoso almirante Lançarote Pessanha, e que havia anos abandonara o serviço marítimo para se dar à mercância, era a mais célebre entre todas as de Lisboa, não só pelo luxo do seu adereço, e pela bondade dos líquidos encerrados nas cubas monumentais que a pejavam, mas também porque, em um aposento mais retirado e interior, uma vasta banca de pinho e muitos assentos rasos os escabelos ofereciam todo o cômodo aos tavolageiros de profissão para perderem ou ganharam aí, em noites de jogo infrene, os belos alfonsins e maravedis de ouro ou as estimadas dobras de D. Pedro I, o qual, ao contrário dos seus antecessores
e sucessores, julgara ser mais rico e poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso do que roubando-lhe o valor intrínseco e aumentando-lhe o nominal, segundo o costume de todos os Reis no começo do seu Reinar.
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