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AMOR
E PÁTRIA
Joaquim Manuel de Macedo
Personagens:
Plácido
Prudêncio
Luciano
Velasco
Afonsina
Leonídia
Senhoras e Cavalheiros
Povo
A ação se passa
no dia 15 de Setembro de 1822.
Drama em Um Ato
ATO
ÚNICO
O teatro representa uma sala
ornada com luxo e esmero em relação
à época. Duas portas ao fundo, uma
dando saída para a rua, e outra comunicando
com uma sala; portas à direita; janelas
à esquerda.
CENA PRIMEIRA
PLÁCIDO, PRUDÊNCIO,
LEONÍDIA e AFONSINA, que observa curiosa
uma caixa que está sobre uma cadeira, e
a porta da sala do fundo que se acha fechada.
Plácido - Ela já nem pode disfarçar
a curiosidade que a atormenta; tem andado em volta
da caixa mais de quatro vezes.
Leonídia - Coitadinha!
Aquilo é tão natural na sua idade...
Prudêncio - Acrescente-lhe:
e no seu sexo... Nunca vi pais tão desfrutáveis!
Plácido - Agora lá
vai ela direitinha olhar pelo buraco da fechadura
da porta: então que disse eu?...
Leonídia - Faz-me
pena vê-la assim martirizando-se.
Plácido - É
para que no fim ainda mais agradável e
completa lhe seja a surpresa.
Prudêncio - E vocês
acham muito bonito o que está fazendo minha
sobrinha?...
Plácido - Então
que lhe acha, senhor tenente rabugento?...
Prudêncio - Nada: apenas
uma comédia em que uma sala trancada e
uma caixa fechada fazem lembrar o pomo vedado,
e em que Afonsina representa o papel de Eva e
minha irmã e meu cunhado o da serpente
tentadora ou do diabo, que é a mesma coisa.
Leonídia - Este meu
irmão tem lembranças felizes!
Prudêncio - Vocês
hão de acabar por perder completamente
aquela menina! O senhor meu cunhado com as idéias
que trouxe da sua viagem à França
e a senhora minha irmã com a sua cegueira
de mãe extremosa, deram-lhe uma educação
como se a quisessem para doutora de borla e capelo:
fizeram-na aprender tudo quanto ela podia ignorar,
e a deixaram em jejum a respeito do que devia
saber. Assim, minha sobrinha dança melhor
do que as bailarinas do teatro de S. João;
toca o seu cravo a ponto de admirar ao padre José
Maurício: canta e gorjeia que parece um
dos italianos da capela real; conversa com os
homens como se eles fossem mulheres; é
capaz de discutirsobre teologia com Frei Sampaio,
e sobre arte militar com o general Corado; mais
se lhe perguntarem como se toma ponto a uma das
meias, como se prepara um bom jantar, como se
governa uma casa, espicha-se completamente: eu
até aposto que ela não sabe rezar.
Leonídia - Afonsina
é um tesouro de talentos e de virtudes,
e você na passa de uma má língua.
Prudêncio - Oh! Pois
não! Nem os sete sábios da Grécia
lhe dão volta! Ela faz versos como o defunto
padre Caldas; fala em política e é
tão eloqüente como o Antônio
Carlos; é tão revolucionária
como o Barata... Não sei por que ainda
não quis se deputado às cortes!...
Havemos de lá chegar: creio, porém,
que já escreve seus artigos para o Reverbero,
e que para isso está de inteligência
com o Ledo e o padre Januário: até
bem pode ser que vocês já a tenham
feito pedreira livre, e que a menina fale com
o diabo à meia-noite.
Afonsina (Vem à frente)
- Minha mãe...
Leonídia - Que tens,
Afonsina? Pareces-me triste...
Plácido - É
verdade, minha filha: que quer dizer esse ar melancólico
no dia dos teus anos, e quando te preparamos uma
bela festa?...
Afonsina - É que ...eu...meu
pai, eu não posso mais...
Prudêncio - Talis arbor,
talis fructus! De um casal sem juízo na
podia nascer senão uma doidinha.
Leonídia - Mas que
te falta, dize?
Afonsina - Ah! Minha mãe,
aquela sala e esta caixa atormentam-me, exasperam-me...
Prudêncio - Andem depressa...andem...satisfaçam
a curiosidade da menina, antes que ela arranje
algum faniquito.
Plácido - E que tens
que ver com aquela sala e com essa caixa?...
Afonsina - É uma curiosidade
bem natural: esta caixa, que está fechada,
talvez contenha algum objeto interessante, e aquela
porta, que e sempre esteve aberta e que hoje amanheceu
trancada, encerra necessariamente algum mistério,
e portanto...
Prudêncio - Vamos
à conseqüência, que há
se ser sublime!...
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