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A
MORTE DO LIDADOR
Alexandre Herculano
- Pajens! Ou arreiem o meu ginete murzelo; e vós
dai-me o meu lorigão de malha de ferro
e a minha boa toledana. Senhores cavaleiros, hole
contam-se noventa e cinco anos que recebi o batismo,
oitenta que visto armas, setenta que sou cavaleiro,
e quero celebrar tal dia fazendo entrada por terras
da frontaria dos mouros.
Isto dizia na sala de armas do castelo de Beja
Gonçalo Mendes da Maia, a quem, pelas muitas
batalhas que pelejara e por seu valor indomável,
chamavam Lidador. Afonso Henriques, depois do
infeliz sucesso de Badajoz, e feitas pazes com
el-rei Leão, o nomeara fronteiro da cidade
de Beja, de pouco tempo conquistada aos mouros.
Os quatro Viegas, filhos do bom velho Egas Moniz,
estavam com êle, e outro muiots cavaleiros
afamados, entre os quais D. Ligel de Flandres
e Mem Moniz - que a festa de vossos anos, Senhor
Gonçalo Mendes, será mais de mancebo
cavaleiro que de capitão encanecido e prudente.
Deu-vos el-rei esta frontaria de Beja para bem
a haverdes de guardar, e não sei se arriscado
é sair hoje à campanha, que dizem
os escutas, chegados ao romper d'alva, que o famose
Almoleimar correr por êstes arredores com
dez vêzes mais lanças do que tôdas
as que estão encostadas nos lanceiros desta
sala de armas.
- Voto a Cristo - atalhou o Lidador - que não
cria em que o senhor rei me houvesse pôsto
nesta tôrre de Beja para estar assentado
à lareira da chaminé, como velha
dona, a espreitar de quando em quando por uma
seteira se cavaleiros mouros vinham correr até
a barbacã, para lhes cerrar as portas e
ladrar-lhes do cimo da tôrre da menagem,
como usam os vilãos. Quem achar que são
duros de mais os arneses dos infiéis pode
ficar-se aqui.
- Bem dito! Bem dito! - exclamarem, dando grandes
risadas, os cavaleiros mancebos.
- Por minha boa espada! - gritou Men Moniz, atirando
o guante ferrado às lájeas do pavimento
- que mente pela gorja quem disser que eu ficarei
aqui, havendo dentro de dez léguas em redor
lide com mouros. Senhor Gonçalo Mendes,
podeis montar em vosso ginete, e veremos qual
das nossas lanças bate primeior em adarga
mourisca.
- A cavalo! A cavalo! - gritou outra vez a chusma,
com grande alarido.
Dali a pouco, ouvia-se o retumbar dos sapatos
de ferro de muitos cavaleiros descendo os degraus
de mármore da tôrre de Beja e, passados
alguns instantes, soava só o tropear dos
cavalos, atravessando a ponte levadiça
das fortificações exteriores que
davam para a banda da campanha por onde costumava
aparecer a mourisma.
2
Era um dia do mês
de julho, duas horas depois da alvorada, e tudo
estava em grande silêncio dentro da cêrca
de Beja: batia o sol nas pedras esbranquiçadas
dos muros e tôrres que a defendiam: ao longe,
pelas imensas compinas que avizinhavam o têso
sôbre que a povoação está
assentada, viam-se ondear as searas maduras, cultivadas
por mãos de agarenos para seus novos senhores
cristãos. Regados por lágrimas de
escravos tinham sido êsses campos, quando
formoso dia de inverno os sulcou o ferro do arado;
por lágrimas de servos seriam outra vez
umedecidos, quando, no mês de julho, a paveia,
cercada pela fouce, pendesse sôbre a mão
do ceifeiro: chôro de amargura havia aí,
como, cinco séculos antes, o houvera: então
de cristãos conquistados, hoje de mouros
vencidos. A cruz hateava-se outra vez sôbre
o crescente quebrado: os coruchéus das
mesquitas convertiam-se em campanários
de sés, e a voz do almuadem trocava-se
por toada de sinos, que chamavam à oração
entendida por Deus.
Era esta a resposta dada pela raça goda
aos filhos d'África e do Oriente, que diziam,
mostrando os alfanges: - "é nossa
a terra de Espanha". - O dito árabe
foi desmentido; mas a resposta gastou oito séculos
a escrever-se. Pelaio entalhou com a espada a
primeira palavra dela nos cerros das Astúrias;
a última gravaram-na Fernando e Isabel,
com os pelouros de suas bambardes, nos panos das
muralhas da formosa Granada: e esta escritura,
estampada em alcantis de ontanhas, em campos de
batalha, nos portais e tôrres dos templos,
nos bancos dos muros das cidades e castelos, acrescentou
no fim a mão da Providência - "assim
para todo o sempre!"
Nesta luta de vinte gera;'oes andavam lidando
as gentes do Alentejo. O servo mouro olhava todos
os dias para o horizonte, onde se enxergavam as
serranias do Algarve: de lá esperava êle
salvação ou, ao emnos, vengança;
ao menos, um dia de combate e corpos de cristãos
estirados na veiga para pasto dos açôres
bravios. A vista do sangue enxugava-lhes por algumas
horas as lágrimas, embora as aves de rapina
tivessem, também, abundante ceva de cadáveres
de seus irmãos! E êste ameno dia
de julho devia ser um dêsses dias por que
suspirava o servo ismaelita.
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