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Uma
praga
rogada nas
escadas
da forca
Camilo Castelo Branco
Este
romance
não
deverá chamar-se
"romance". Desde
que
esta palavra
é o atilho
onde
se enfeixam as
mentirosas invenções
do
escritor
fanático, não
há história
verdadeira
que
possa, como
tal, recomendar-se com
aquele
título.
Estes
acontecimentos,
expostos
aqui,
segundo
o
formulário
romântico, e afeiçoados
às
leis
do
estilo
romântico,
são
verdades
que
não
deram
brado, nem
se agravaram na
memória
da
geração
que
as viu e as
não
compreende.
Na
vida
moral
da
sociedade
há
fenômenos
cuja
causa
ninguém
estuda. No
drama
da
família
há
lances
que
são
do
domínio
público,
e o
público
não
pode, ainda
que
o tente, explicá-los.
Nas
atribulações
individualíssimas do
homem
há
fases
extraordinárias de
sofrimento,
que
esta
sociedade
de
entranhas
cruéis lhe
recrimina,
reputando-lhes
efeitos
necessários
das
causas,
conseqüências
do
crime
voluntário.
A
sociedade, a
família, e o
homem
expiam
incessantemente
a
culpa
do homem, da
família
e da
sociedade. Opera-se uma
contínua
redenção
do gênero
humano. O homem
é,
desde
o seu
princípio, a
vítima
da
culpa
com
o
lábio
colocado no cálice
da agonia.
A
vida
sobre
a terra
é uma
interminável
expiação. Eu
pago
pelos
crimes
do meu
pai, meus
filhos
expiando
meus
crimes, e o
último
ser
vivo
da
animalidade
inteligente
será o holocausto
do
primeiro
homem
criminoso. É
forçoso
recorrer
ao inconcebível, ao
sobrenatural, ao
misticismo
da
providência
culta
para
compreender
o que
vulgarmente
se diz "
fatalidade
".
Na
história, que
vai ser
lida, é tão
sensível
esta necessidade,
tão
aterrado se sente o espírito
diante
de um
fato
consumado,
que
eu
não
tive escrúpulo
religioso
ou
filosófico em
subordinar
um
encadeamento
de
infortúnios
de uma
família
à praga
rogada nas escadas
da
forca.
I
Bernardo da Silva
era
um
filho
bastardo
de uma podre
de Vizeu. Do ventre
materno
passou à
roda
dos expostos
e daí aos cuidados
duma
mulher
d'
aldeia.
Aos dez
anos
não
conhecia
pai;
e sua
mãe
mulher
do
povo,
arrastada sobre
a
lama
da
plebe
toda
a
sua
vida,
morrera
com
o
segredo
do
nobre,
que
se dignara
descer
até
ela
para
honrá-la
com
desonra.
Bernardo, aos dez
anos,
era
aprendiz
de alfaiate,
e de
todos
os
seus
companheiros
era
ele
o
mais
desprezado, porque
também
era
o
mais
preguiçoso.
O rapaz
vivia triste
como
se a
idade
lhe
permitisse compreender
a
dor
imensa
dum
grande
desastre.
Lá
dentro
daquele
coração
infantil
falava uma profecia
fúnebre.
Com
os olhos
sempre
extáticos
no
horizonte
negro
do
seu
futuro,
o
pobre
moço
não
tinha
uma hora
livre
para
o
trabalho.
Muitas
vezes
uma
bofetada
acordava-o daquele
letargo;
e o
braço,
que
estava suspenso
com
a agulha,
continuava a
tarefa
molhada
de
lágrimas.
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