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Uma praga rogada nas escadas da forca
Camilo Castelo Branco

VirtualBooks Literatura Portuguesa

Formato:e-book/ .PDF
Código:Lportumapraga345
© VirtualBooks 2003
Disponibilidade: Grátis para você para baixar agora!
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Trechos do livro eletrônico

Uma praga rogada nas escadas da forca
Camilo Castelo Branco

Este romance não deverá chamar-se "romance". Desde que esta palavra é o atilho onde se enfeixam as mentirosas invenções do escritor fanático, não história verdadeira que possa, como tal, recomendar-se com aquele título.

     
Estes acontecimentos, expostos aqui, segundo o formulário romântico, e afeiçoados às leis do estilo romântico, são verdades que não deram brado, nem se agravaram na memória da geração que as viu e as não compreende.

      Na
vida moral da sociedade fenômenos cuja causa ninguém estuda. No drama da família lances que são do domínio público, e o público não pode, ainda que o tente, explicá-los. Nas atribulações individualíssimas do homem fases extraordinárias de sofrimento, que esta sociedade de entranhas cruéis lhe recrimina, reputando-lhes efeitos necessários das causas, conseqüências do crime voluntário.

      A
sociedade, a família, e o homem expiam incessantemente a culpa do homem, da família e da sociedade. Opera-se uma contínua redenção do gênero humano. O homem é, desde o seu princípio, a vítima da culpa com o lábio colocado no cálice da agonia.

      A
vida sobre a terra é uma interminável expiação. Eu pago pelos crimes do meu pai, meus filhos expiando meus crimes, e o último ser vivo da animalidade inteligente será o holocausto do primeiro homem criminoso. É forçoso recorrer ao inconcebível, ao sobrenatural, ao misticismo da providência culta para compreender o que vulgarmente se diz " fatalidade ".

      Na
história, que vai ser lida, é tão sensível esta necessidade, tão aterrado se sente o espírito diante de um fato consumado, que eu não tive escrúpulo religioso ou filosófico em subordinar um encadeamento de infortúnios de uma família à praga rogada nas escadas da forca.


I
      Bernardo da Silva
era um filho bastardo de uma podre de Vizeu. Do ventre materno passou à roda dos expostos e daí aos cuidados duma mulher d' aldeia.

      Aos
dez anos não conhecia pai; e sua mãe mulher do povo, arrastada sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o segredo do nobre, que se dignara descer até ela para honrá-la com desonra.

      Bernardo, aos
dez anos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus companheiros era ele o mais desprezado, porque também era o mais preguiçoso.

      O
rapaz vivia triste como se a idade lhe permitisse compreender a dor imensa dum grande desastre. dentro daquele coração infantil falava uma profecia fúnebre. Com os olhos sempre extáticos no horizonte negro do seu futuro, o pobre moço não tinha uma hora livre para o trabalho. Muitas vezes uma bofetada acordava-o daquele letargo; e o braço, que estava suspenso com a agulha, continuava a tarefa molhada de lágrimas.

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