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Sonhos
D'oro
José de Alencar
I
O sol ardente de fevereiro
dourava as lindas serranias da Tijuca.
Que formosa manhã! O céu arreava-se
do mais puro azul; o verde da relva e da folhagem
sorria entre as gotas de orvalho, cambiando aos
toques da luz.
Frocos de névoa, restos da cerração
da noite, cingiam ainda os píncaros mais
altos da montanha, como pregas de véu flutuante,
ao sopro da brisa, pelas espáduas das lindas
amazonas, que durante o verão costumam
percorrer aquelas amenas devesas.
Seriam sete horas.
Um passeador solitário seguia a pé
e distraidamente por um dos muitos caminhos que
se cruzam em várias direções
pela encosta ocidental da montanha. Levava ele
embaixo do braço esquerdo um álbum
de desenho, naturalmente destinado à cópia
das magníficas perspectivas, que oferecem
a cada passo as quebradas da serrania.
Era moço de 28 anos. Seu rosto de traços
nobres não tinha decerto a beleza correta
e artística do tipo clássico, nem
a faceirice de certos casquilhos, príncipes
da moda: apresentava porém uma fisionomia
simpática e distinta. O olhar sobretudo,
que é o sol d'alma, lhe esclarecia a larga
fronte pensativa de reflexos inteligentes.
Trajava com extrema simplicidade. Tinha um vestuário
completo, ou no jargão parisiense dos alfaiates,
um costume ainda bem conservado e decente, apesar
de um tanto fanado na gola. Notava-se a ausência
completa do ouro: a abotoadura era toda de marfim;
e não se via sinal de relógio.
Depois de alguns minutos de passeio, o moço,
cujos olhos iam percorrendo com indiferença
as bordas do caminho, de um e outro lado alternadamente,
desviou-se do trilho batido e seguiu por dentro
do mato. Mal tivera tempo de sumir-se entre a
ramagem do arvoredo, quando ouviu-se o tropel
de um cavalo que passou a galope. Enfiando o olhar
por entre as folhas, pôde ver o cavaleiro,
o qual era rapaz de 21 anos, de belo parecer e
maneiras agradáveis. Montava um cavalo
castanho.
- Fábio!
- O cavaleiro colheu prontamente as rédeas,
fazendo estacar a montaria, e voltou-se duvidoso
para ver se com efeito o haviam chamado, como
lhe parecera. A rapidez do galope e a repercussão
do solo tinham impedido que ouvisse distintamente
a voz do passeador a pé:
- Que milagre!... Hoje madrugaste!...
- Ah! És tu, Ricardo?! Exclamou o cavaleiro
retribuindo o sorriso. Vou à "Vista
dos Chins" com uns rapazes que estão
aí no hotel do Jourdain. Convidaram-me
ontem à noite. É um piquenique!
Queres ir também?
- Só se partíssemos ao meio o "Galgo",
observou Ricardo, alisando a linda anca do cavalo.
- Dou-te garupa! Replicou Fábio gracejando.
- Obrigado!... Luisinha teria ciúmes.
- Bem; vai romantizar com as flores, que os sujeitos
estão à minha espera. Talvez já
chegue tarde! Digam lá o que quiserem.
Um homem deve se dar a respeito, e não
comparar-se com os animais e os carroceiros que
deitam de dia e acordam-se de noite.
Atirando esse gracejo, Fábio deu de rédeas
ao animal e partiu a galope.
- Olha o "Galgo", hem! gritou Ricardo.
- Com efeito!... nem de Bela tens tanto cuidado!
Ricardo sorriu e, acompanhou com os olhos o amigo
até que sumiu-se na volta do caminho. Não
era porém o cavaleiro, apesar de elegante,
o que prendia a tenção do passeador,
e sim o cavalo cuja fina roupagem castanha brilhava
aos reflexos do sol. A esbelteza das formas esgalgadas
e o garbo dos movimentos fáceis e vivos,
lhe tinham merecido o lindo nome dado pelo dono.
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