Senhora
José de Alencar
Ao Leitor
Este
livro, como os dois que o precederam, não
são da própria lavra do escritor,
a quem geralmente os atribuem.
A
história é verdadeira; e a narração
vem de pessoa que recebeu diretamente, e em circunstâncias
que ignoro, a confidência dos principais
atores deste drama curioso.
O
suposto autor não passa rigorosamente de
editor. É certo que tomando a si o encargo
de corrigir a forma e dar-lhe um lavor literário,
de algum modo apropriar-se não a obra mas
o livro.
Em
todo caso, encontram-se muitas vezes nestas páginas
exuberâncias de linguagem e afoutezas de
imaginação, a que já não
se lança a pena sóbria e refletida
do escritor sem ilusões e sem entusiasmos.
Tive
tentações de apagar algum desses
quadros mais plásticos ou pelo menos de
sombrear as tintas vivas e cintilantes.
Mas
devia eu sacrificar a alguns cabelos grisalhos
esses caprichos artísticos de estilo, que
talvez sejam para os finos cultores da estética
o mais delicado matiz do livro?
E
será unicamente uma fantasia de colorista
e adorno de forma, o relevo daquelas cenas, ou
antes de tudo serve de contraste ao fino quilate
de um caráter?
Há
efetivamente um heroísmo de virtude na
altivez dessa mulher, que resiste a todas as seduções,
aos impulsos da própria paixão,
como ao arrebatamento dos sentidos.
José
de Alencar
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