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Primo
Basílio
Eça de Queirós
Apresentação
Um dos bons e vivazes
talentos da atual geração portuguesa,
o Sr. Eça de Queirós, acaba de publicar
o seu segundo romance, O Primo Basílio.
O primeiro, O Crime do Padre Amaro, não
foi decerto a sua estréia literária.
De ambos os lados do Atlântico, apreciávamos
há muito o estilo vigoroso e brilhante
do colaborador do Sr. Ramalho Ortigão,
naquelas agudas Farpas, em que aliás os
dois notáveis escritores formaram um só.
Foi a estréia no romance, e tão
ruidosa estréia, que a crítica e
o público, de mãos dadas, puseram
desde logo o nome do autor na primeira galeria
dos contemporâneos. Estava obrigado a prosseguir
na carreira encetada; digamos melhor, a colher
a palma do triunfo. Que é, e completo e
incontestável.
Mas esse triunfo é somente devido ao trabalho
real do autor? O Crime do Padre Amaro revelou
desde logo as tendências literárias
do Sr. Eça de Queirós e a escola
a que abertamente se filiava. O Sr. Eça
de Queirós é um fiel e aspérrimo
discípulo do realismo propagado pelo autor
do Assommoir. Se fora simples copista, o dever
da crítica era deixá-lo, sem defesa,
nas mãos do entusiasmo cego, que acabaria
por matá-lo; mas é homem de talento,
transpôs ainda há pouco as portas
da oficina literária; e eu, que lhe não
nego a minha admiração, tomo a peito
dizer-lhe francamente o que penso, já da
obra em si, já das doutrinas e práticas,
cujo iniciador é, na pátria de Alexandre
Herculano e no idioma de Gonçalves Dias.
Que o sr. Eça de Queirós é
discípulo do autor do Assommoir, ninguém
há que o não conheça. O próprio
Crime do Padre Amaro é imitação
do romance de Zola, La Faute de l'Abbé
Mouret. Situação análoga,
iguais tendências; diferença do meio;
diferença do desenlace; idêntico
estilo; algumas reminiscências, como no
capítulo da missa, e outras; enfim, o mesmo
título. Quem os leu a ambos, não
contestou decerto a originalidade do Sr. Eça
de Queirós, porque ele a tinha, e tem,
e a manifesta de modo afirmativo; creio até
que essa mesma originalidade deu motivo ao maior
defeito na concepção do Crime do
Padre Amaro. O Sr. Eça dc Queirós
alterou naturalmente as circunstâncias que
rodeavam o padre Mouret, administrador espiritual
de uma paróquia rústica, flanqueado
de um padre austero e ríspido; o padre
Amaro vive numa cidade de província, no
meio de mulheres, ao lado de outros que do sacerdócio
só têm a batina e as propinas; vê-os
concupiscentes e maritalmente estabelecidos, sem
perderem um só átomo de influência
e consideração. Sendo assim, não
se compreende o terror do padre Amaro, no dia
em que do seu erro lhe nasce um filho, e muito
menos se compreende que o mate. Das duas forças
que lutam na alma do padre Amaro, uma é
real e efetiva - o sentimento da paternidade;
a outra é quimérica e impossível
- o terror da opinião, que ele tem visto
tolerante e cúmplice no desvio dos seus
confrades; e não obstante, é esta
a força que triunfa. Haverá aí
alguma verdade moral?
Ora bem, compreende-se a ruidosa aceitação
do Crime do Padre Amaro. Era realismo implacável,
conseqüente, lógico, levado à
puerilidade e à obscuridade. Víamos
aparecer na nossa língua um realista sem
rebuço, sem atenuações, sem
melindres, resoluto a vibrar o camartelo no mármore
da outra escola, que aos olhos do Sr. Eça
de Queirós parecia uma simples ruína,
unia tradição acabada. Não
se conhecia no nosso idioma aquela reprodução
fotográfica e servil das coisas mínimas
e ignóbeis. Pela primeira vez, aparecia
um livro em que o escuso e o - digamos o próprio
termo, pois tratamos de repelir a doutrina, não
o talento, e menos o homem, - em que o escuso
e o torpe eram tratados com um carinho minucioso
e relacionados com uma exação de
inventário. A gente de gosto leu com prazer
alguns quadros, excelentemente acabados, em que
o Sr. Eça de Queirós esquecia por
minutos as preocupações da escola;
e, ainda nos quadros que lhe destoavam, achou
mais de um rasgo feliz, mais de uma expressão
verdadeira a maioria, porém, atirou-se
ao inventário. Pois que havia de fazer
a maioria, senão admirar a fidelidade de
um autor, que não esquece nada, e não
oculta nada? Porque a nova poética é
isto, e só chegará à perfeição
no dia em que nos disser o número exato
dos fios de que se compõe um lenço
de cambraia ou um esfregão de cozinha.
Quanto à ação em si, e os
episódios que a esmaltam, foram um dos
atrativos do Crime do Padre Amaro, e o maior deles;
tinham o mérito do pomo defeso. E tudo
isso, saindo das mãos de um homem de talento,
produziu o sucesso da obra.
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