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O
Rio de Janeiro em 1877
Artur Azevedo
P
R Ó L O G O
Gruta sombria
Cena I
Bedel (Espanejando
algumas pedras soltas que se acham espalhadas
pela cena.)
Copla
Vós,
que tendes, meus senhores,
bem formadas, boas almas,
aos atores e autores
batei palmas, batei palmas.
De que nos dei uma vaia
livre-nos Deus e o canhoto,
mas pra que a peça não caia,
basta cair-vos no goto.
Hão de convir que é muito original
esta idéia de encaixar o couplet final
no princípio: mas, como tenho os meus pressentimentos
de que o ano de 1877, que principia amanhã,
há de andar tudo às avessas, assim
faço. De mais, é mau costume pedir
palmas no fim da peça; a gente as deve
pedir no princípio, antes que o público
saiba o que vai ver. O sujeito que vai empenhar-se
com o examinador para que lhe aprove o filho plenamente
na Instrução Pública, fá-lo
sempre antes do exame. Que diabo. O pequeno pode
sair-se mal e então o pedido não
tinha pés nem cabeça. (Escarra,
tosse, assoa-se.) O teatro representa uma gruta
agreste em um país inteiramente desconhecido.
Nesta gruta é que se costumam reunir, no
dia 31 de dezembro, as calamidades brasileiras,
a fim de darem conta dos seus trabalhos durante
o ano, e predisporem-se para o vindouro. Cena
I : Apareço em Bedel e digo:- Agora é
que começa a revista. (Põe-se de
novo a espanar, noutro tom.) Felizmente está
terminado o meu serviço. Não tardam
aí as calamidades brasileiras. Encontrarão
tudo limpo. (Música.) Sinto passo, são
elas.
Cena II
O Mesmo, a Política,
a Febre Amarela, Ilustríssima, a Seca,
a Inundação, City Improvements,
o Boato, a Capoeira, a Subscrição,
o Beribéri, o Cortiço, a Conferência,
o Veículo, o Engraxate, o Carcamano, o
Poeta, a Morte de braço dado com o Médico
Coro
Calamidades, ei-las por cá:
pestes, moléstias, tudo aqui há.
O fim do ano por cá nos traz.
Somos, senhores, só coisas más.
(A Política
senta-se numa pedra mais elevada, ao fundo.)
POLÍTICA (Ao Bedel.) - Não falta
ninguém?
BEDEL - Não, ao que parece.
POLÍTICA - Mas como não gosto de
dúvidas, eu, a Política, a principal
das calamidades brasileiras, que amo e dirijo
todas as outras, ordeno procedas à chamada
geral.
BEDEL - É já. (Abrindo um livro
que tira de trás duma pedra.) - Política?
POLÍTICA - Presente.
BEDEL - A Fome? (Depois de pausa.) Não
veio! Está jantando talvez. - Febre Amarela?
A FEBRE - Presente. (Vem à boca da cena.)
Eu não tenho cor política,
pesar de ser amarela:
não escolho as minhas vítimas,
ataco a esta e àquela.
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