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O ERMITÃO DA GLÓRIA
José de Alencar


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Código:Vboermitao7654
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Trechos do livro eletrônico

O ERMITÃO DA GLÓRIA
José de Alencar

AO LEITOR

São de outro tom os singelos contos que formam este segundo volume dos Alfarrábios.
Não convidam ao riso, que tão excelente especiaria é para um livro de entreter. Bem longe disso, talvez que espremam dos corações mais ternos e sentimentais uns fios de lagrimas.
Caso assim aconteça, será com bem pesar meu, pois sinceramente acho de mau-gosto lembrar-se alguém de produzir choros d'artifício à guisa de jogos de vista, quando não faltam motivos reais de tristeza e aflição.
Prometo porem desde já em expiação deste pecado literário, que o terceiro volume dos Alfarrábios irá mais brincalhão do que o primeiro


Rio de Janeiro, maio de 1873.

J. DE ALENCAR




AO CORSO

Caía a tarde.
A borrasca, tangida pelo nordeste, desdobrava sobre o oceano o manto bronzeado.
Com a sombra, que projetavam os negros castelos de nuvens, carregava-se o torvo aspecto da costa.
As ilhas que bordam esse vasto seio de mar, entre a Ponta dos Búzios e Cabo Frio, confundiam-se com a terra firme, e pareciam apenas saliências dos rochedos.
Nas águas da Ilha dos Papagaios balouçava-se um barco de borda rasa e um só mastro, tão cosido à terra, que o olhar do mais prático marinheiro não o distinguiria a meia milha de distância entre as fraguras do penedo e o farelhão dos abrolhos.
Pelas amuradas e convés do barco viam-se recostados ou estendidos de bruços, cerca de dez marujos, que passavam o tempo a galhofar, molhando a palavra em um garrafão de boa cachaça de São Gonçalo, cada um quando chegava a sua vez.
Na tilha sobre alva esteira de coco estava sentada uma linda morena, de olhos e cabelos negros, com uma boca cheia de sorrisos e feitiços.
Tinha ao colo a bela cabeça de um rapaz, deitado sobre a esteira; numa posição indolente, e com os olhos cerrados, como adormecido.
De momento a momento, a rapariga debruçava-se para pousar um beijo em cheio nos lábios do moço, que entreabria as pálpebras e recebia a carícia com um modo, que revelava quanto já se tinha saciado na ternura da meiga cachopa.
- Acorde, preguiçoso! dizia esta galanteando.
- Teus beijos embriagam, amor! Não o sabias? respondeu o moço fechando os olhos.
Nesse instante um homem, que descera a abrupta encosta do rochedo com extrema agilidade, atirou-se á ponta da verga, e travando de uma driça, deixou-se escorregar até o convés.
O desconhecido, que assim chegava de modo tão singular, era já bem entrado em anos, pois tinha a cabeça branca e o rosto cosido de rugas; mas conservara a elasticidade e nervo da idade viril.
Com a arfagem que o movimento do velho imprimiu ao navio, sobressaltou-se toda a maruja; e o moço que estava deitado na esteira, ergueu-se de golpe, como se o tocara oculta mola.
Nesse mancebo resoluto, de nobre e altivo parecer, que volvia em torno um olhar sobranceiro, ninguém por certo reconheceria o indolente rapaz que dormitava pouco antes no colo de uma mulher.
Na postura do moço não havia a menor sombra de temor nem de surpresa, mas somente a investigação rápida e o arrojo de uma natureza ardente, pronta a afrontar o perigo em toda a ocasião.
Do primeiro lanço viu o velho que para ele caminhava:
- Então, Bruno?
- Aí os temos, Senhor Aires de Lucena; é só fisgar-lhes os arpéus. Uma escuna de truz!
- Uma escuna!... Bravo, homem! E dize-me cá, são flamengos ou ingleses?
- Pelo jeito, tenho que são os malditos franceses.
- Melhor; os franceses passam por bravos, entre os mais, e cavalheiros! A termos de acabar, mais vale que seja a mãos honradas, meu velho.
A esse tempo já a maruja toda a postos esperava as ordens do capitão para manobrar.

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