Navio Negreiro
Castro Alves
Enquanto
outros poetas como Gonçalves Dias, tomam
o índio como herói, tomou Castro
Alves o negro, nada estético, tido como
de casta inferior na sociedade, sem nenhum valor
mítico. O índio foi um herói
bem mais fácil de ser forjado, pois existia
apenas como mito, não participava da sociedade
e tinha valor heróico, por causa da sua
tradição guerreira. Assim, o negro,
em Castro Alves, é quase sempre um mulato
com feições e sensibilidade de um
branco. O amor será tratado como um encantamento
da alma e do corpo e não mais como uma
esquivança ou desespero ansioso dos primeiros
romances.
1
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar - dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
- Constelações do líquido
tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande
o espaço?
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