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História
de Quinze Dias
Machado de Assis
1876
[1 julho]
I
Dou começo à
crônica no momento em que o Oriente se esboroa
e a poesia parece expirar às mãos
grossas do vulgacho. Pobre Oriente! Mísera
poesia!
Um profeta surgiu em uma
tribo árabe, fundou uma religião,
e lançou as bases de um império;
império e religião têm uma
só doutrina, uma só, mas forte como
o granito, implacável como a cimitarra,
infalível como o Alcorão.
Passam os séculos,
os homens, as repúblicas, as paixões;
a história faz-se dia por dia, folha a
folha; as obras humanas alteram-se, corrompem-se,
modificam-se, transformam-se. Toda a superfície
civilizada da terra é um vasto renascer
de coisas e idéias. Só a idéia
muçulmana estava de pé; a política
do Alcorão vivia com os paxás, o
harém, a cimitarra e o resto.
Um dia, meia dúzia
de rapazes libertinos iscados de João Jacques
e de Benjamim Constant, ainda quentes do último
discurso de Gladstone ou do mais recente artigo
do Courrier de l'Europe; meia dúzia de
rapazes, digo eu, resolveram dar com o monumento
bizantino em terra, abrir o ventre ao fatalismo
e arrancar de lá uma carta constitucional
Pelas barbas do Profeta!
Há nada menos maometano do que isto? Abdul-Aziz,
o último sultão ortodoxo, quis resistir
ao 89 turco; mas não tinha sequer o exército,
e caiu; e, uma vez caído, deitou-se da
janela da vida à rua da eternidade.
O Alcorão fala de
dois anjos negros de olhos azuis? que descem a
interrogar os mortos. O ex-padixá foi naturalmente
inquirido como os outros:
-Quem é teu senhor?
-Alá.
__Tua religião?
-lslã.
-Teu profeta?
__Maomé.
-Há um só deus
e um só profeta?
-Um só. La illah il
Allah, ve Muhameden ressul Allah.
-Perfeito. Acompanha-nos.
O pobre sultão obedeceu.
Chegando à porta das
delícias eternas achou o profeta sentado
em coxins espirituais, resguardado por um guarda-sol
metafísico.
-Que vens cá fazer?
-perguntou ele.
Abdul explicou-se, referiu
o seu infortúnio; mas o profeta atalhou-o,
clamando:
-Cala-te! És
mais do que isso, és o destruidor da lei,
o inimigo do Islã. Tu fizeste possível
o gérmen corruptor das minhas grandes instituições,
pior que a fé de Cristo, pior que a inveja
dos russos, pior que a neve dos tempos; tu fizeste
o gérmen constitucional. A Turquia vai
ter uma câmara, um ministério responsável,
uma eleição, uma tribuna, interpelações,
crises, orçamentos, discussões,
a lepra toda do parlamentarismo e do constitucionalismo.
Ah! quem me dera Omar! ah! quem me dera Omar!
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