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Dois Proveitos em Um Saco
França Júnior
PERSONAGENS
AMÉLIA TEIXEIRA
LUÍS TEIXEIRA, seu marido
CATARINA, criada alemã
BOAVENTURA FORTUNA DA ANUNCIAÇÃO
A cena passa-se em Petrópolis, no verão de 1873.
ATO ÚNICO
Sala regularmente mobiliada
CENA I
AMÉLIA e CATARINA
AMÉLIA (Mirando-se em um espelho.) - Como achas este vestido?
CATARINA - Vai-lhe às mil maravilhas, minha ama.
AMÉLIA - Lisonjeira.
CATARINA - Somente tenho que fazer-lhe uma observação. Permite-me?
AMÉLIA - Fala.
CATARINA - Parece-me que se a cauda fosse mais pequena...
AMÉLIA - Tola, tu não sabes o que é o chique.
CATARINA - Pois olhe, não é isto o que diz o seu Antonico Mamede.
AMÉLIA - E quem é este Senhor Antonico?
CATARINA - Seu Antonico Mamede é um moço louro, que costuma ir todos os sábados ao baile alemão. Aquilo é que é rapaz de truz Se minha ama visse com que graça e elegância ele dança a polca!...
AMÉLIA - Oh! atrevida! Tu queres fazer-me confidências amorosas?
CATARINA - Minha ama não namorou também ao Senhor Teixeira antes de se casar com ele? Ainda me lembro quando aqui chegaram em novembro do ano passado, para passarem a lua de mel. Vinham tão agarradinhos que dir-se-ia um casal de pombos batedores. E como estava este chalé! Era um brinco!
AMÉLIA - E os tais oito dias oficiais da lua de mel prolongaram-se até hoje graças ao belo clima de Petrópolis. Ser condenada a passar aqui uma vida inteira, sem ter uma distração no inverno, contemplando, saudosa, todos os anos, esses bandos de andorinhas que voam para a corte, apenas o arvoredo começa a perder o brilho de suas folhas verde-negras. Ora, diz-me uma coisa. Este seu Antonico sofre do fígado?
CATARINA - Do fígado?! Que lembrança! É um rapagão sadio como há poucos.
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