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Amor de Salvação
Camilo Castelo Branco
A heavy price must all pay who err,
In some shape let none think to fly the danger,
BYRON - D. Juan, cap. IV, est. 73
L"amour n'a point de moyen terme; ou il perd, ou il sauve.
V. HUGO - Les Misérables.
A José Gomes Monteiro
Meu amigo.
Peço licença para inscrever o seu nome na primeira página deste
livro. Esta fica sendo para mim a mais prestante obra. As outras são
futilidades; porque lágrimas e alegrias de romance é tudo fútil.
No Minho, em 1864.
OBSERVAÇÃO
O leitor folheia duzentas páginas deste livro, e o amor de felicidade e bom
exemplo não se lhe depara, ou vagamente lhe preluz. Três partes do romance narram
desventuras do amor de desgraça e mau exemplo. A crítica, superintendente em matéria
de títulos de obras, querendo abater-se a esquadrinhar a legitimidade do titulo desta,
pode embicar, e ponderar - que o amor puro, o amor de salvação, vem tarde para
desvanecer as impressões do amor impuro, do amor infesto.
Respondo humildemente: Amor de salvação, em muitos casos obscuros, é o amor que excrucia e desonra.
Então é que o senso intimo mostra ao coração a sua ignomínia e miséria. A consciência
regenera-se, e o coração, reabilitado. avigora-se para o amor impoluto e honroso.
Assim é que as enseadas serenas estão para além das vagas montuosas, que lá cospem
o náufrago aferrado à sua tábua. Sem o impulso da tormenta, o náufrago pereceria no
mar alto. Foi a tempestade que o salvou.
Além de que a felicidade, como história, escreve-se em poucas páginas: é idílio
de curto fôlego; no sentir intraduzível da consciência é que ela encerra
epopéias infinitas - enquanto que a desgraça não demarca balizas à experiência nem à
imaginação.
Para o amor maldito, duzentas páginas; para o amor de salvação. as poucas
restantes do livro. Volume que descrevesse um amor de bem-aventuranças terrenas
seria uma fábula.
O AUTOR
I
Estava claro o céu, tépido o ar, e as bouças e montes floridos, O mês era de
Dezembro, de 1863, em véspera de Natal.
A gente das cidades pergunta-me em que pais do mundo florescem, em
Dezembro, bouças e montados.
Respondo que é em Portugal, no perpétuo jardim do mundo, no Minho, onde os
inventores de deuses teriam ideado as suas teogonias, se não existisse a Grécia. No
Minho, ao menos, se buscariam águas límpidas para Castálias e Hipocrenes. No
Minho, a Citera para a mãe dos amores. Nos arvoredos desta região de sonhos, de poemas, e
rumores de conversarem espíritos, é que os sátiros, as dríades e os silva-nos sairiam a
cardumes dos troncos e regatos: que tudo aqui parece estar dizendo que a natureza tem
segredos defesos ao vulgo, e como a entreabrirem-se à fantasia de poetas.
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