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A
Jóia
Artur Azevedo
Texto-base
digitalizado por:
Sérgio
Luiz Simonato – Campinas/SP
e-mail de contato: tiosergio@uol.com.br
DRAMA EM TRÊS ATOS
Em versos
PERSONAGENS
Valentina
Joaquim Carvalho
João de Souza
Gustavo
Um Joalheiro
Um Sujeito
Rio de Janeiro, 1874
ATO PRIMEIRO
Sala de visitas em casa
de Valentina. Duas portas de cada lado e duas
janelas de sacada ao fundo. À esquerda
do espectador, sofá; ao lado deste, poltrona.
À direita, escrivaninha, com preparos para
escrever. Cadeiras, consolos com porta-jóias,
estatuetas, quinquilharias, etc. Nos intervalos
das portas, gravuras ricamente emolduradas. Reposteiros
de lã em todas as portas e cortinas de
rendas às janelas. Piano. Tapete. Lustre
de gás. É dia.
Cena I
Valentina, Um Sujeito
(Valentina
está sentada na poltrona, de penteador
branco. O sujeito de pé, pronto para sair,
de chapéu na cabeça, tem uma das
mãos entre as dela.)
VALENTINA - Adeus. De mim não se esqueça
Nem do número da porta.
O SUJEITO - Não.
VALENTINA - Se, de saudades morta
Me não quer ver, apareça.
O SUJEITO (Aborrecido.) - Adeus.
VALENTINA - Adeus. (Ele vai saindo.) Até
quando?
O SUJEITO (Parando.) - Prometo voltar bem cedo.
VALENTINA - Não minta.
O SUJEITO - Não tenhas medo!
Pois eu vivo em ti pensando. (Sai.)
Cena II
Valentina, só
[VALENTINA] - Pensando
em mim!... Na verdade,
o tempo emprega bem mal,
(Abrindo o envelope que o sujeito lhe tem deixado
nas mãos.)
Sim senhor, foi liberal.
Quanta generosidade!...
(Erguendo-se, e como que dirigindo-se ao sujeito
que acaba de sair.)
Bem! cá fica arquivado
no livro dos preciosos... (Tirando três
cédulas do envelope.)
Que três bilhetes formosos!
Fazem-lhe falta... Coitado...
Sei de dois credores seus
que a porta não lhe abandonam,
e sei também que tencionam
mandar citá-lo... (Outro tom.) Ora, adeus!
Deixemos estas lembranças...
Fechemos a porta à chave...
(Vai fechar a porta da esquerda, segundo plano,
e voltando à cena, vai abrir uma das gavetas
da secretária.)
E, nesta solidão suave,
vamos tratar de finanças.
Esta semana rendeu!
A receita, com certeza,
cento por cento a despesa
nestes dias excedeu.
(Senta-se à secretária, donde tira
um monte de notas de banco, que põe-se
a contar.)
Dez, vinte, trinta, quarenta,
cento e quarenta, duzentos,
trezentos, e quatrocentos,
quinhentos e cinqüenta,
seiscentos... - Que nota antiga!
Não estará recolhida? (Guarda pressurosa
o dinheiro, por ouvir bater à porta.)
Quem está aí?
GUSTAVO (Fora.) - Sou eu, querida!
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