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A
Alma do Lázaro
José de Alencar
ADVERTÊNCIA
Este
alfarrábio, não o devo ao meu velho cronista do
Passeio Público. É, como se disse no prólogo,
uma escavação dos tempos escolásticos.
Tem
ele
porém, se
me
não
engano, o
mesmo
sabor
de
antiguidade
que
os
outros, e ao
folheá-lo estou
que
o
leitor
há de
sentir
o
bafio
de
velhice,
que
respira
das
cousas
por
muito
tempo
guardadas.
Para
alguns
esse
mofo
literário
é
desagradável. Há
porém
antiquários
que
acham
particular
encanto
nestas
exsudações
do
passado
que
ressumam dos
velhos
monumentos
e dos velhos
livros.
Rio
de
Janeiro,
dezembro
de
1872.
PRIMEIRA
PARTE
A
ALMA
PENADA
Triste
irrisão
é a
glória
.
Quantos
engenhos
sublimes
,
criados
para
as arrojadas
concepções
,
que
ficam
aí
tolhidos
pelo
estalão
do
viver
banal
,
senão
sepultos
em
vida
na
indiferença
,
quando
não
é no
desprezo
das
turbas
?
Também
quanta
ralé
,
feita
para
patinhar
no
pó
,
que
se
ala
as
eminências
, insuflada
pelos
parvos
, e se apavora
com
as
galas
da
celebridade
?
E
dizer que homens de são juízo labutam ou porfiam
após esse fogo fátuo, e deslumbram-se a ponto de
esquecerem afetos e bens, sacrificados em má hora
à ilusão falaz!
Lá
volvem os
anos
; e
um
dia
vem à
flor
da
terra
o
crânio
que
foi
um
poeta
,
ou
um
herói
.
Quem
se importa
com
o
sobejo
dos
vermes
? É
um
pouco
de
cal
e
nada
mais
.
Não
tarda
que
a
pata
do
homem
ou
do
bruto
passando
por
aí
triture
esse
pó
, a
que
animou
outrora
o
sopro
de
Deus
, mens
divinior.
O
autor do Diário
do Lázaro foi um de tantos engenhos,
atados a grilheta da miséria Poeta desconhecido,
enquanto a sua alma inspirada se derramava em
ânsias e prantos, o bestunto de muito zote
agaloado lá se estava enfunando com os aplausos,
furtados à virtude e saber.
Foi
há
muito
tempo
.
Era
eu
estudante
na
academia
de Olinda.
Tinha
então
dezenove
anos
, e sentia
minhas
quedas
para
a
poesia
,
mas
pela
poesia
plebéia,
em
prosa
estirada
,
que
isso
de
verso
é cousa
com
que
não
se conformava o
meu
espírito
.
Vão
lá
medir
o
pensamento
,
rimar
as
paixões
?
Muitas
vezes
sucedia-me nas
vigílias
do
estudo
apanhar
o
eu
em
flagrante
delito
de
literatura
, a
idear
romances
e
fantasiar
dramas
,
enquanto
lá
o
outro
, o
estudante
de
carne
e
osso
, tressuava às
voltas
com
o
Corpus
Juris
Civilis.
Qual
é a
alma
que
nas primeiras
expansões
da
vida
, a dilatar-se
pelos
largos
horizontes
desta
terra
do Brasil; a embeber-se nas
ondas
de
luz
que
imergem essa
porção
mimosa
da
criação
; a coar-se nas
harmonias
das
brisas
que
passam pelas
florestas
,
não
solta
o
vôo
e se
arroja
ao
céu
,
embora
o
calor
do
sol
lhe
requeime as
asas
, precipitando-a num
oceano
,
que
é a
dúvida
!
Era
poeta
; posso confessá-lo
agora
que
essa
veleidade
passou de uma
feita
e
já
agora
não
voltará
mais
.
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