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O Rei do Rio de
Ouro
Charles Dickens
CAPÍTULO I
Como o senhor
vento sudoeste se meteu no sistema de lavoura dos
irmãos negros
Numa remota e montanhosa região da Estíria,
houve noutros tempos um vale da maior e mais
surpreendente fertilidade. Era completamente
rodeado de montanhas escarpadas e rochosas cujos
picos muito altos estavam sempre cobertos de neve
e de onde corriam em constantes cataratas inúmeras
torrentes. Uma destas montanhas era tão alta que,
quando o sol se punha para tudo o mais - e já em
volta dominava a escuridão - ainda os seus raios
brilhavam intensamente sobre o rio que se
despenhava do seu cume, dando-lhe o aspecto de um
chuveiro de ouro. Por esse motivo o povo daqueles
sítios chamava-lhe o Rio de Ouro.
Era estranho que nenhuma daquelas torrentes ia
cair no vale, mas todas desciam pelos outros lados
dos montes e serpenteavam através de vastas planícies
e cidades populosas. As nuvens eram impelidas tão
constantemente para os picos cobertos de neve e
ficavam tanto tempo por sobre aquela concavidade,
que, nas épocas das grandes secas e do calor,
quando os campos próximos estavam queimados,
ainda chovia no valezinho; as suas colheitas eram
tão abundantes, e o seu feno tão alto, e as suas
maçãs tão vermelhas, e as suas uvas tão roxas,
e o seu vinho tão rico, e o seu mel tão doce,
que era uma maravilha para quem os possuía e
todos o conheciam pelo nome de Vale do Tesouro.
Todo este vale pertencia a três irmãos chamados
Schwartz, Hans e Gluck. Schwartz e Hans os dois
irmãos mais velhos, eram muito feios, de
sobrancelhas salientes, olhos pequenos e baços,
sempre semicerrados para que ninguém pudesse ver
o que eles pensavam e eles vissem o que pensavam
as outras pessoas.
Viviam da lavoura do Vale do Tesouro e eram muito
bons lavradores. Matavam tudo o que não
compensasse o que comia. Matavam os melros, porque
bicavam a fruta; matavam os ouriços para não
sugarem as vacas; envenenavam os grilos para não
comerem as migalhas na cozinha e matavam as
cigarras que costumavam cantar todo o Verão em
cima das limas. Faziam trabalhar os criados sem
lhes pagar, até que eles se recusavam a isso; então
questionavam com eles e mandavam-nos embora sem
lhes dar absolutamente nada.
Seria muito estranho se, com uma propriedade
daquelas e semelhante sistema de se governarem, não
enriquecessem. E enriqueceram.
Em geral arranjavam as coisas para conservar o
trigo em seu poder até que ele encarecia e então
vendiam-no pelo dobro do que ele valia; tinham
montões de ouro no chão da sua casa, mas não
constava que tivessem alguma vez dado dinheiro ou
alguma côdea, de esmola a alguém. Nunca iam à
missa, resmungavam sempre que pagavam as décimas
e, numa palavra, eram tão cruéis e tinham tão
mau génio que as pessoas que precisavam lidar com
eles os tinham alcunhado de Irmãos Negros.
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