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O Príncipe
que Caiu do Céu
ANTONIO VIRGILIO DE ANDRADE
No
sítio do Rio das Pedras, que fica lá
pras bandas do cafundó do Pirenópolis,
morava Pedro Bobó Zarcão, Dona Jandira
Zunira Zarcão, e seus dez filhos: Mané
Bodocó, Chiquinha Feijão, Amelinha
Jiló, Pedro Cipó, Bibiu, Babú,
Flozô, Juquinha, Totó Fuinha e Margô,
a caçula. A família de Pedro Bobó
Zarcão era pequena, mas com ele também
moravam as irmãs de Dona Zunira: Zuleide
Anzol, e Zuleide Chumbada que de tão grandona
e pesada era conhecida pelo apelido de Fofinha.
Os dias no sítio
eram deliciosamente monótonos e infindáveis.
A rotina de arar a terra, semear o milho, alimentar
a criação, e madrugar no dia seguinte
para conferir se o trabalho do dia anterior havia
surtido resultado almejado, às vezes, proporcionava
melancolia. Mas era uma melancolia passageira,
gostosa de se viver. Tanto era, que por lá
também ocorriam momentos de encanto e magia
que só quem por lá viveu é
que pode contar. E era nesses momentos, que a
família aproveitava para acender fogueira
nas noites de lua nova para clarear a escuridão.
A família de
Pedro Bobó Zarcão adorava as noites
de fogueira. Para todos era uma excelente oportunidade
para comer milho assado. Para todos, exceto para
Zuleide Anzol que já estava com vinte anos
e pensava que a estrelinha que brilhava por cima
do telhado era mensageira do seu príncipe
encantado. Ela tinha seus motivos para assim pensar.
Pois bem sabia que nas noites nas quais a estrelinha
brilhava no firmamento era prenúncio que
o campo amanheceria coberto de bilhetinhos como
se fosse uma chuva de papel picado. E para sua
alegria, em todos eles, seu nome e um coração
pintado nas asas de um avião, que ela,
por não atinar que coisa era aquela, pensava
que era um gavião.
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