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Missa do Galo
Machado de Assis
Nunca pude entender a conversação
que tive com uma senhora, há muitos anos,
contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de
Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à
missa do galo, preferi não dormir; combinei
que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava
hospedado era a do escrivão Meneses, que
fora casado, em primeiras núpcias, com
uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição,
e a mãe desta acolheram-me bem, quando
vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses
antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo,
naquela casa assobradada da Rua do Senado, com
os meus livros, poucas relações,
alguns passeios. A família era pequena,
o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas.
Costumes velhos. As dez horas da noite toda a
gente estava nos quartos; às dez e meia
a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais
de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao
teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas
ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as
escravas riam à socapa; ele não
respondia, vestia-se, saía e só
tornava na manhã seguinte. Mais tarde é
que eu soube que o teatro era um eufemismo em
ação. Meneses trazia amores com
uma senhora, separada do marido, e dormia fora
de casa uma vez por semana. Conceição
padecera, a princípio, com a existência
da comborça; mas, afinal, resignara-se,
acostumara-se, e acabou achando que era muito
direito.
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