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ÁGUA RASA
NO RIACHO FUNDO
ANTONIO VIRGILIO DE ANDRADE
A
VISITA DO LUNÁTICO
Conta-se que num certo dia
de verão, um lobo peludo, de coloração
pardo-vermelha, mais escura no dorso, pés
e focinho pretos, com malha branca na garganta;
estava sentado no barranco vigiando o exato momento
em que o peixe apontaria a cabeça fora
d’água. O canídeo estava inquieto
e ansioso; cansado daquele esperar solitário
quando divisou um vulto reluzente cortando a flor
da água fria. Eriçou as orelhas;
como se estivesse preparando um bote. E gritou:
- Pirá!
- O que foi, Guará...
Qual é o motivo dessa aflição?
- Preciso levar o esqueleto
pra casa, amigo...
- Que sina! – ruiu o outro.
- Quando a festa está ficando boa você
quer ir embora!
- Que nada, amigo...Você
sabe muito bem que não posso ficar a vadiar
neste pedaço de cerrado.
- Sei não... Tudo
me levar crer que já não preza nossa
amizade.
- Que nada, amigo... Você
sabe que não é verdade. Tenho muito...
- Tem nada seu mentiroso!
- atalhou o peixe.
-...Tenho muito chão
pela frente, Pira! O fogo pode reaparecer... Já
se esqueceu?
- Você está
certo, Guará... Não posso exigir
que o amigo se exponha ao perigo.
- Então, até
breve, amigo... Mas antes de partir, quero agradecer
por ter apagado o fogo do meu rabo... Fico te
devendo mais uma!
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