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Trechos
do livro eletrônico
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FILEBO
Platão
Escrito
em 360 A.C.
Personagens do Diálogo: Sócrates, Protarco, Filebo
I
– Sócrates — Então vê, Protarco, em
que consiste a tese de Filebo, cuja defesa vais
fazer, e também a nossa, que terás de contestar,
no caso de não a aprovares. Queres que
recapitulemos as duas?
Protarco —
Perfeitamente.
Sócrates —
Ora bem: o que Filebo afirma, é que, para todos os
seres animados, o bem consiste no prazer e no
deleite, e tudo o mais do mesmo gênero. De nossa
parte, defendemos o princípio de que talvez não
seja nada disso, mas que o saber, a inteligência, a
memória e tudo o que lhes for aparentado, como a
opinião certa e o raciocínio verdadeiro, são
melhores e de mais valor que o prazer, para quantos
forem capazes de participar deles, e que essa
participação é o que há de mais vantajoso pode
haver para os seres em universal, presentes e
futuros. Não foram esses pontos, Filebo, mais ou
menos, que cada um de nós defendeu?
Filebo — Isso
mesmo, Sócrates; sem tirar nem pôr.
Sócrates — E
agora, Protarco, aceitas amparar a tese que te
confiamos?
Protarco —
Sou obrigado a aceitar, uma vez que o belo Filebo já
cansou.
Sócrates —
Por todos os meios, haveremos de atingir a verdade
nesse terreno.
Protarco —
Sem dúvida.
II –
Sócrates — Muito bem; acrescentemos ao que
ficou dito mais o seguinte.
Protarco —
Que será?
Sócrates — A
partir deste momento, cada um de nós se esforçará
por demonstrar qual é o estado e a disposição da
alma capaz de proporcionar vida feliz aos homens. Não
é isso mesmo?
Protarco —
Exato.
Sócrates —
Então, compete a vós ambos demonstrar que é o
prazer; e a mim, a sabedoria.
Protarco —
Perfeitamente.
Sócrates — E
se descobrirmos outro estado, superior a esses? No
caso de revelar-se mais aparentado com o prazer, não
será certeza ficarmos ambos vencidos pela vida
reforçada com essa vantagem, mas que a vida do
prazer levará a melhor, com relação a da
sabedoria.?
Protarco —
Isso mesmo.
Sócrates — E
se tiver maior afinidade com a sabedoria, esta é
que vencerá o prazer, que acabará derrotado.
Admites também esse ponto, ou não?
Protarco —
Eu, pelo menos, admito.
Sócrates — E
tu, Filebo, o que me dizes?
Filebo — De
meu lado, sou de opinião que, de todo o jeito, o
prazer sairá vencedor; mas a ti, Protarco, é que
compete decidir.
Protarco —
Desde que nos transferiste a discussão, Filebo,
perdeste o direito de concordar com Sócrates ou
divergir dele.
Filebo — Tens
razão; e assim, daqui em diante considero-me
desobrigado de responder, para o que invoco o
testemunho da própria deusa.
Protarco — Nós,
também, juntamos ao teu o nosso testemunho, com
respeito a essa declaração. E agora, Sócrates,
quer Filebo concorde, quer faça o que entender,
procuremos desenvolver nossos argumentos até o fim.
III
– Sócrates — Sim, façamos isso mesmo, a
começar pela própria divindade que, segundo Filebo,
se chama Afrodite, mas cujo verdadeiro nome é
Prazer.
Protarco —
Certíssimo.
Sócrates — Não
é humano, Protarco, o medo que sempre revelo, com
respeito aos nomes do Deuses; excede a toda espécie
de temor; foi por isso que eu designei Afrodite da
maneira mais do seu agrado. Quanto ao prazer, sei
muito bem que é vário e múltiplo; e, uma vez que
vamos começar por ele, conforme declaramos,
compete-nos estudar, desde logo, sua natureza.
Quando o ouvimos designar, parece único e muito
simples; mas, em verdade, assume as mais variadas
formas, que, de certo jeito, são totalmente dessemelhantes
entre si. Atende ao seguinte: dizemos que o indivíduo
intemperante sente prazer, como afirmamos a mesma
coisa do temperante, pelo fato de ser temperante, e
também do insensato repleto de opiniões e de
esperanças loucas, e do próprio sábio, por ser
este o que é, realmente: sábio. Ora, quem
afirmasse que são iguais essas duas espécies de
prazer, com todo o direito não poderíamos abordá-lo
de irracional?
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