DO PROGRESSO - SUA LEI E SUA CAUSA
HERBERT SPENCER
Nota Editorial
Esta edição, além de tornar acessível ao eventual leitor uma obra de Spencer que, pelas pesquisas que fiz, tornou-se rara, tem alguns objetivos que gostaria de deixar aqui assinalados.
Em primeiro lugar, chamar a atenção das novas gerações para um autor que teve uma importância muito grande entre nós nos fins do século XIX e início do seguinte.
Em segundo, sendo Spencer reputado (mesmo pelos que só o conhecem por terceiros, ou por rodapés, como se está tornando usual) como um “darwinista social”, sua noção de “progresso” é muito mais rica e instigante do que a noção vulgar que o termo tomou nos dias de hoje.
Isso, espero que fique claro na “capa” do presente volume.
É algo que fica claríssimo em The First
Principles, em que propõe, expressamente, “UM SISTEMA DE FILOSOFIA”, não de Sociologia, como já cheguei a ler, constituindo “Os Princípios de Sociologia” apenas uma das partes da obra.
Ademais, longe de defender um determinismo do “progresso”, deixava ampla margem para a ação humana, em direção ao progresso ou à degradação, como declara expressamente nos ensaios que viriam a constituir o The Man Versus The State.
Ler ou reler Spencer hoje, quando, mais que nunca antes, ações humanas podem resultar na própria exterminação das mais básicas condições da existência humana no planeta, quando a fé na Ciência e no Progresso parciais
substituíram junto a muitos o respeito devido à Natureza e à Unidade essencial do Todo, é, pelo menos, um bom antídoto.
Além do texto de Spencer, optamos por manter nesta edição, em “fair use” a Nota do Tradutor, Eduardo Salgueiro, da Editorial Inquérito e
expoente das letras em Portugal, pela relevância do texto para benefício do
leitor.
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EM QUE CONSISTE O PROGRESSO
PECA por indefinido e vário o conceito que habitualmente se faz do progresso. Designa, umas vezes, pouco mais que um simples crescimento, como quando, ao tratar-se duma nação, se atende ao número dos habitantes e à extensão do território; outras, refere-se à quantidade dos produtos materiais: tal ocorre quando nos detemos no adiantamento da agricultura ou da indústria; há casos, ainda, em que o
critério atende à qualidade superior destes produtos ou aos novos e aos melhores meios de obtê-los. Por outro lado, quando falamos de progresso intelectual e moral, referimo-nos ao estado dos indivíduos ou do povo onde se produz; mas, ao aludir aos progressos dos conhecimentos, da ciência, das artes, temos presentes certos resultados abstratos do pensamento e da atividade
humana.
Não obstante, a concepção vulgar do progresso não só é mais ou menos vaga mas até errônea em alto grau. Atende menos à realidade do progresso do que às circunstâncias acessórias que o acompanham: dá menos importância à substância do que à sua sombra. O progresso que se observa na inteligência da criança, quando esta se transforma em homem, ou na do selvagem quando se civiliza, faz-se consistir vulgarmente no maior número de fatos conhecidos ou de leis compreendidas; em rigor, porém, o progresso consiste nas modificações interiormente experimentadas, das quais o desenvolvimento da inteligência é mera expressão.
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