Que é isto – A Filosofia?
Martin Heidegger
QU’EST-CE
QUE LA PHILOSOPHIE?1
COM
ESTA questão tocamos um tema muito vasto. Por ser
vasto, permanece indeterminado. Por ser
indeterminado, podemos tratá-lo sob os mais
diferentes pontos de vista e sempre atingiremos algo
certo. Entretanto, pelo fato de, na abordagem deste
tema tão amplo, se interpenetrarem todas as opiniões,
corremos o risco de nosso diálogo perder a devida
concentração.
Por
isso devemos tentar determinar mais exatamente a
questão. Desta maneira, levaremos o diálogo para
uma direção segura. Procedendo assim, o diálogo
é conduzido a um caminho. Digo: a um
caminho. Assim concedemos que este não é o único
caminho. Deve ficar mesmo em aberto se o caminho
para o qual desejaria chamar a atenção, no que
segue, é na verdade em caminho que nos permite
levantar a questão e respondê-la.
Suponhamos
que seríamos capazes de encontrar um caminho para
responder mais exatamente à questão; então se
levanta imediatamente uma grave objeção contra o
tema de nosso encontro. Quando perguntamos:
Que
é isto – a filosofia?, falamos sobre a
filosofia. Perguntando desta maneira, permanecemos,
num ponto acima da filosofia e isto quer dizer fora
dela. Porém, a meta de nossa questão é penetrar na
filosofia, demorarmo-nos nela, submeter nosso
comportamento às suas leis, quer dizer,
“filosofar”. O caminho de nossa discussão deve
ter por isso não apenas uma direção bem clara,
mas esta direção deve, ao mesmo tempo,
oferecer-nos também a garantia de que nos movemos
no âmbito da filosofia, e não fora e em torno
dela.
O
caminho de nossa discussão deve ser, portanto, de
tal tipo e direção que aquilo de que a filosofia
trata atinja nossa responsabilidade, nos toque (nous
touche),2 e
justamente em nosso ser.
Mas
não se transforma assim a filosofia num objeto de
nosso mundo afetivo e sentimental?
‘Com
os belos sentimentos faz-se a má literatura.” “C’est
avec les beaux sentiments que l’on faít la
mauvaise litterature.” Esta palavra de André
Gide não vale só para a literatura; vale ainda
mais para a filosofia. Mesmo os mais belos
sentimentos não pertencem à filosofia. Diz-se que
os sentimentos são algo de irracional. A filosofia,
pelo contrário, não é apenas algo racional, mas a
própria guarda da ratio. Afirmando isto
decidimos sem querer algo sobre o que é a
filosofia. Com nossa pergunta já nos antecipamos à
resposta. Qualquer uma terá por certa a afirmação
de que a filosofia é tarefa da ratio. E,
contudo, esta afirmação é talvez uma resposta
apressada e descontrolada à pergunta: Que é isto
– a filosofia? Pois a esta resposta podemos
contrapor novas questões. Que é isto – a ratio,
a razão? Onde e por quem foi decidido o que é a
razão? Arvorou-se a ratio mesma em senhora
da filosofia? Em caso afirmativo, com que direito?
Se negativa a resposta, de onde recebe ela sua missão
e seu papel? Se aquilo que se apresenta como ratio
foi primeiramente e apenas fixado pela filosofia e
na marcha de sua história, então não é de bom
alvitre tratar a priori a filosofia como negócio
da ratio. Todavia, tão logo pomos em suspeição
a caracterização da filosofia como um
comportamento racional, torna-se, da mesma maneira,
também duvidoso se a filosofia pertence à esfera
do irracional. Pois quem quiser determinar a
filosofia como irracional, toma como padrão para a
determinação o racional, e isto de um tal modo que
novamente pressupõe como óbvio o que seja a razão.
Se,
por outro lado, apontamos para a possibilidade de
que aquilo a que a filosofia se refere concerne a nós
homens em nosso ser e nos toca, então poderia ser
que esta maneira de ser afetado não tem
absolutamente nada a ver com aquilo que comumente se
designa como afetos e sentimentos, em resumo, o
irracional.
Do
que foi dito deduzimos primeiro apenas isto: é
necessário maior cuidado se ousamos inaugurar um
encontro com o título: “Que é isto – A
Filosofia?”
Um
tal cuidado exige primeiro que procuremos situar a
questão num caminho claramente orientado, para não
vagarmos através de representações arbitrárias e
ocasionais a respeito da filosofia. Como, porém,
encontraremos o caminho no qual poderemos determinar
de maneira segura a questão?
O
caminho para o qual desejaria apontar agora está
imediatamente diante de nós. E precisamente pelo
fato de ser o mais próximo o achamos difícil.
Mesmo quando o encontramos, movemo-nos, contudo,
ainda sempre desajeitadamente nele. Perguntamos: Que
é isto – a filosofia? Pronunciamos assaz freqüentes
vezes a palavra “filosofia”. Se, porém, agora não
mais empregarmos a palavra “filosofia’ como um
termo gasto; se em vez disso escutarmos a palavra
“filosofia” em sua origem, então, ela soa philosophía.
A palavra ‘filosofia” fala agora através do
grego. A palavra grega é, enquanto palavra grega,
um caminho. De um lado, esse caminho se estende
diante de nós, pois a palavra já foi proferida há
muito tempo.De outro lado, ele já se estende atrás
de nós, pois ouvimos e pronunciamos esta palavra
desde os primórdios de nossa civilização. Desta
maneira, a palavra grega philosophía é um
caminho sobre o qual estamos a caminho. Conhecemos,
porém, este caminho apenas confusamente, ainda que
possuamos muitos conhecimentos históricos sobre a
filosofia grega e os possamos difundir.
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