Fedão
Platão
Escrito
em 360 A.C.
Personagens do Diálogo
Fedão, que é o narrador do diálogo a Equécrates
de Fliunte, Sócrates, Apolodoro, Símias, Cebete,
Critobulo, atendente da prisão
Cena:
A prisão de Sócrates
I
– Equécrates — Estiveste tu mesmo, Fedão,
junto de Sócrates no dia em que ele tomou veneno na
prisão, ou ouviste de alguém?
Fedão — Não,
eu mesmo, Equécrates.
Equécrates —
Então, que disse o homem antes de morrer? E como
foi a sua morte? Gostaria de saber tudo o que se
passou. Recentemente, nenhum cidadão de Fliunte tem
ido a Atenas, e há muito não nos vêm de lá
forasteiros capazes de dar-nos informações
seguras, salvo dizerem que morreu depois de tomar o
veneno. Quanto ao mais, nada informam de particular.
Fedão — E
também não ouviste contar como foi o julgamento?
Equécrates —
Ouvimos, sim; alguém nos falou nisso. Surpreendeu-
nos, justamente, ter sido bem antes o julgamento e
ele só vir a morrer muito depois. Que aconteceu,
Fedão?
Fedão — Foi
tudo obra do acaso, Equécrates, o que se passou com
ele. Precisamente na véspera do julgamento coroaram
a popa do navio que os Atenienses enviam a Delo.
Equécrates —
Que é isso?
Fedão —
Segundo os Atenienses, é o navio em que outrora
Teseu levou para Creta as duas septenas de jovens,
moços e moças, que ele salvou, salvando-se também.
Nessa ocasião, segundo contam, prometeram a Apolo
enviar anualmente uma deputação a Delo, no caso de
se salvarem, e até hoje todos os anos vão em
romaria à divindade. Desde o início dos
preparativos da viagem, determina a lei que se
proceda à purificação do burgo, não sendo
permitido executar ninguém por crime público antes
de chegar a Delo o navio e retornar de lá. Por
vezes esse prazo fica muito dilatado, quando os
ventos são adversos. O início da peregrinação é
contado a partir do momento em que o sacerdote de
Apolo coroa a popa do navio, o que se deu, conforme
disse, na véspera do julgamento. Esse o motivo de
ter estado Sócrates tanto tempo na prisão, desde o
julgamento até à morte.
II –
Equécrates — E as condições em que
morreu, Fedão? Quais foram suas palavras? Como se
houve em tudo? Quais dos seus familiares se
encontravam ao seu lado? Ou as autoridades não
permitiram que entrassem, vindo ele a morrer privado
de assistência dos amigos?
Fedão — De
forma alguma; vários estiveram presentes; em grande
número, mesmo.
Equécrates —
Então, procura contar-nos com a maior exatidão
possível como tudo se passou, no caso de dispores
de folga.
Fedão —
Disponho, sim, e vou tentar expor-vos o que se deu.
Para mim, nada é tão agradável como recordar-me
de Sócrates, ou seja quando falo nele, ou quando ouço
alguém falar a seu respeito.
Equécrates —
Pois podes ter a certeza, Fedão, de que teus
ouvintes estão nessas mesmas condições. Esforça-te,
portanto, para contar o caso com todas as minúcias.
Fedão — Era
por demais estranho o que eu sentia junto dele. Não
podia lastimá-lo, como o faria perto de um ente
querido no transe derradeiro. O homem me parecia
felicíssimo, Equécrates, tanto nos gestos como nas
palavras, reflexo exato da intrepidez e da nobreza
com que se despedia da vida. Minha impressão
naquele instante foi que sua passagem para o Hades não
se dava sem disposição divina, e que, uma vez lá
chegando, sentir-se-ia tão venturoso com os que
mais o foram. Por isso mesmo, não me dominou nenhum
sentimento de piedade, o que seria natural na presença
de um moribundo. Também não me sentia alegre, como
costumava ficar em nossa práticas sobre filosofia.
Sim, porque toda nossa conversa girou em torno de
temas filosóficos. Era um estado difícil de
definir, misto insólito de alegria e tristeza, por
lembrar-me de que ele iria morrer dentro de pouco.
As mais pessoas presentes se encontravam em condições
quase idênticas, umas rindo, outras chorando,
principalmente Apolodoro. Conheces o homem e sabes
como ele é.
Equécrates —
Sem dúvida.
Fedão — Pois
desse jeito se comportou o tempo todo. Eu também,
fiquei muito abalado, a mesma coisa passando-se com
os outros.
Equécrates —
E quem se achava lá, Fedão?
Fedão — Além
do mencionado Apolodoro, seus conterrâneos
Critobulo e o pai, Hermógenes, Epígenes, Ésquines
e Antístenes. Ctesipo de Peânia também esteve
presente, Menéxeno e mais alguns da mesma região.
Se não me engano, Platão se achava doente.
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