A Vitória dos Intelectuais
Janer Cristaldo
Euroforia e
Subdesenvolvimento11/1/2002
Salud y pesetas,— diziam os espanhóis
—fuerza en la bragueta,un par de buenas tetas,y lo demás son puñetas!
Diziam. Do dia 1° para cá, a peseta passou à história da literatura. Ou da numismática. Salud y euros pode ser melhor, mas não rima. Sem falar que euro não tem plural. Os italianos também estão preocupados com o problema. Com o fim da lira, os vates perdem rimas fáceis como delira, inspira, sospira. Toda palavra que designa uma moeda entra forçosamente na literatura e, do início de janeiro para cá, os livros de doze países passam a ter, do dia para a noite, um ar de mais antigos. Para sorte dos poetas, a poesia contemporânea dispensa rimas. Pois não será fácil encontrar rimas para euro, em qualquer das línguas dos doze países onde a nova moeda vai cursar.
Toda palavra que designa uma moeda entra forçosamente na literatura, dizia. Em termos, é bom precisar. Neste nosso sofrido continente, só entra quando tem tempo de entrar. Há moedas que não sobrevivem a um ano, não têm sequer tempo de grudar na memória coletiva. Qual brasileiro de 50 anos consegue lembrar todas as moedas que já viu na vida? Só se for especialista no ramo. Recapitulando: de 67 para cá tivemos o cruzeiro, o cruzeiro novo, o cruzeiro de novo (não confundir com o anterior cruzeiro novo), o cruzado, o cruzado novo (durou 14 meses), e de novo o cruzeiro (que substituiu o cruzado novo), o cruzeiro real (durou 10 meses) e hoje o real, que Deus o proteja. Decididamente, não há tempo para rimas.
Enquanto na América Latina as moedas morrem de morte matada, em meio a convulsões políticas e sociais, na Europa as moedas morreram morte serena. Foi uma eutanásia conscientemente desejada. Os britânicos, por exemplo, que não quiseram entrar neste afável pacto, estão se arrancando os cabelos e se perguntando quando abandonarão a libra para aderir ao euro.
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