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DISCURSO
PRELIMINAR SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO
Augusto
Comte
DISCURSO
SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO
OBJETO
DESTE DISCURSO
1.
O conjunto dos conhecimentos astronômicos não
deve mais ser considerado isoladamente, como até
aqui, mas constituir de ora avante apenas um dos
elementos indispensáveis do novo sistema indivisível
de filosofia geral que hoje atingiu finalmente sua
verdadeira maturidade abstrata, depois de ter sido
gradualmente preparado pelo concurso espontâneo
dos grandes trabalhos científicos dos três últimos
séculos. Em virtude desta íntima conexidade,
ainda pouco compreendida, a natureza e o destino
deste Tratado não poderão ser devidamente
apreciados se este preâmbulo imprescindível não
for consagrado sobretudo à definição
conveniente do verdadeiro e fundamental espírito
desta filosofia, cuja instalação universal deve
ser, no fundo, o objetivo precípuo de semelhante
ensino. Como ela se distingue principalmente pela
continua preponderância, a um tempo lógica e
científica, do ponto de vista histórico ou
social, devo antes de tudo, para melhor caracterizá-la,
lembrar de modo sumário a grande lei que
estabeleci, em meu Sistema de Filosofia Positiva,
sobre a evolução total da Humanidade, lei à
qual os nossos estudos astronômicos hão de
recorrer com freqüência.
I
PARTE
SUPERIORIDADE MENTAL DO ESPÍRITO POSITIVO
CAPÍTULO
I
LEI DA EVOLUÇÃO INTELECTUAL DA HUMANIDADE OU LEI
DOS TRÊS ESTADOS
2.
De acordo com esta doutrina fundamental, todas as
nossas especulações estão inevitavelmente
sujeitas, assim no indivíduo como na espécie, a
passar por três estados teóricos diferentes e
sucessivos, que podem ser qualificados pelas
denominações habituais de teológico, metafísico
e positivo, pelo menos para aqueles que tiverem
compreendido bem o seu verdadeiro sentido geral. O
primeiro estado, embora seja, a princípio, a
todos os respeitos, indispensável deve ser
concebido sempre, de ora em diante, como puramente
provisório e preparatório; o segundo, que é, na
realidade, apenas a modificação dissolvente do
anterior, não comporta mais que um simples
destino transitório, para conduzir gradualmente
ao terceiro; é neste, único plenamente normal,
que consiste, em todos os gêneros, o regime
definitivo da razão humana.
I.
Estado teológico ou fictício
3.
No seu primeiro surto, necessariamente teológico,
todas nossas especulações manifestam de modo
espontâneo uma predileção característica pelas
mais insolúveis questões, pelos assuntos mais
radicalmente inacessíveis a qualquer investigação
decisiva. O espírito humano, numa época em que
está ainda abaixo dos mais simples problemas
científicos, por um contraste, que em nossos dias
deve parecer-nos à primeira vista inexplicável,
mas que, no fundo, se acha então em plena
harmonia com a verdadeira situação inicial da
nossa inteligência, procura avidamente, e de
maneira quase exclusiva, a origem de todas as
coisas, as causas essenciais, quer primárias,
quer finais, dos diversos fenômenos que o
impressionam, e seu modo fundamental de produção,
em uma palavra, os conhecimentos absolutos. Esta
necessidade primitiva se acha naturalmente
satisfeita tanto quanto o exige tal situação é
mesmo, de fato, tanto quanto o possa jamais ser,
por nossa tendência inicial a transportar por
toda a parte o tipo humano, assimilando quaisquer
fenômenos aos que nós mesmos produzimos, os
quais, por esta razão, começam a parecer-nos
bastante conhecidos, em virtude da intuição
imediata que os acompanha. Para compreender bem o
espírito puramente teológico, proveniente do
desenvolvimento, cada vez mais sistemático, deste
estado primordial, cumpre não nos limitarmos a
considerá-lo na sua última fase que se consuma,
à nossa vista, nas populações mais adiantadas,
mas que está longe de ser a mais característica:
torna-se indispensável lançarmos uma vista de
olhos verdadeiramente filosófica sobre o conjunto
de sua marcha natural, a fim de apreciarmos sua
identidade fundamental sob as três formas
principais que lhe são sucessivamente próprias.
4.
A mais imediata e a mais pronunciada destas formas
constitui o fetichismo propriamente dito, que
consiste sobretudo em atribuir a todos os corpos
exteriores uma vida essencialmente análoga à
nossa, quase sempre, porém mais enérgica, em
virtude de sua ação, de ordinário, mais
poderosa. A adoração dos astros caracteriza o
grau mais elevado desta primeira fase teológica
que, no começo, quase não difere do estado
mental a que atingem os animais superiores. Ainda
que esta primeira forma de filosofia teológica se
manifeste com evidência na história intelectual
de todas as nossas sociedades, ela já não domina
diretamente hoje senão na menos numerosa das três
grandes raças que compõem a nossa espécie.
5.
Na sua segunda fase essencial, que constitui o
verdadeiro politeísmo, muitas vezes confundido
pelos modernos com o estado precedente, o espírito
teológico representa claramente o livre predomínio
especulativo da imaginação, ao passo que até
então o instinto e o sentimento tinham sobretudo
prevalecido nas teorias humanas. A filosofia
inicial sofre nessa época a mais profunda
transformação, que o conjunto do seu destino
real pode comportar, por isso que nela a vida é
enfim retirada dos objetos materiais, para ser
misteriosamente transportada a diversos seres fictícios,
habitualmente invisíveis, cuja intervenção
ativa e contínua se torna daí por diante a
origem direta de todos os fenômenos exteriores e
mesmo em seguida dos fenômenos humanos. E durante
esta fase característica, mal apreciada hoje, que
convém principalmente estudar o espírito teológico,
que nele se desenvolve com uma plenitude e uma
homogeneidade impossível ulteriormente: esta época
é, a todos os respeitos, a do seu maior
ascendente, ao mesmo tempo mental e social. A
maioria de nossa espécie não saiu ainda de
semelhante estado, que persiste hoje na mais
numerosa das três raças humanas, no escol da raça
negra e na parte menos avançada da branca.
6.
Na terceira fase teológica, o monoteísmo
propriamente dito dá começo ao inevitável declínio
da filosofia inicial. Esta, embora conserve por
dilatado tempo grande influência social, contudo
mais aparente ainda do que real, sofre desde então
rápido decréscimo intelectual, como conseqüência
espontânea desta simplificação característica
pela qual a razão, unificando os deuses,
restringe cada vez mais o domínio anterior da
imaginação e permite desenvolver gradualmente o
sentimento universal, ainda quase insignificante,
da sujeição forçosa de todos os fenômenos
naturais a leis invariáveis. Sob formas mui
diversas e até radicalmente inconciliáveis, esta
fase extrema do regime preliminar persiste ainda,
com energia muito desigual, na imensa maioria da
raça branca; mas ainda que seja assim mais fácil
de ser observada, as próprias preocupações
pessoais acarretam hoje um obstáculo muito freqüente
à sua judiciosa observação, por falta de uma
comparação suficientemente racional e justa com
as duas fases precedentes.
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