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| Sobre
os textos
Os
textos da COLEÇÃO RIDENDO CASTIGAT MORES
foram gentilmente cedido por Nélson Jahr Garcia, que
nasceu em São Paulo, formado na Faculdade de Direito do Largo
São Francisco. Professor da USP, e de outras Faculdades Particulares.
Fez mestrado e doutoramento em Ciências da Comunicação na
ECA-USP. Escreve livros, artigos. É webdesigner e ebook-publisher.
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Da República
Cícero
VirtualBooks
Formato:e-book/ PDF
Código:RCM
© Ridendo Castigat Mores, 2000
Linguagem: Português
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Trechos
do livro eletrônico
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Da
República
Cícero
APRESENTAÇÃO
Nélson
Jahr Garcia
Cícero
erigiu um dos mais importantes pilares do
pensamento romano de sua época. Suas concepções
filosóficas, morais, jurídicas e religiosas
foram muito respeitadas por seus contemporâneos e
o são até nossos dias.
Em "Da República"
Cícero defende, como sistema político ideal, um
modelo misto de aristocracia e de governo popular.
Fundamentando suas idéias, analisa e discute, sob
a forma de diálogo, as características do
verdadeiro homem público, igualdade de direitos,
injustiça, tirania, o culto da família e do lar
doméstico, a dissolução dos costumes gregos e
romanos.
O ponto alto
encontra-se no Livro Sexto, que durante anos foi o
único texto conhecido, sob o nome de O
Sonho de Cipião ("Somnium Scipionis").
Nesse Livro, em estilo elegante e espiritualista
defende, essencialmente, o dogma da existência de
Deus e da imortalidade da alma.
É uma obra-prima.
LIVRO
PRIMEIRO
I
Sem o amor pátrio, não teriam Duílio (1),
Atílio (2)
e Metelo (3)
libertado Roma do terror de Cartago; sem ele, não
teriam os dois Cipiões apagado o incêndio da
segunda guerra púnica, e, quando seu incremento
foi ainda maior, não o teria debilitado Quinto Máximo
(4),
nem extinguido M. Marcelo (5),
nem impelido P. Africano (6)
às próprias muralhas inimigas. Certamente a Catão
(7),
homem desconhecido, de quem, não obstante, todos
os que estudam as mesmas verdades invejam a glória
que alcançou com sua virtude e trabalho, pode ser
lícito deleitar-se ociosamente no saudável e próximo
sítio de Túsculo (8).
Mas, o homem veemente prefere, embora seja chamado
de louco e a necessidade não o obrigue, arrostar
as tempestades públicas entre suas ondas, até
sucumbir decrépito, a viver no ócio prazenteiro
e na tranqüilidade. Deixo de nomear os inúmeros
varões que salvaram a República, e passo em silêncio
aqueles de que se conserva recente memória,
temeroso de suscitar queixas com a omissão de
algum. Afirmarei, sim, que tamanha é a
necessidade de virtude que o gênero humano
experimenta por natureza, tão grande o amor à
defesa da saúde comum, que essa força triunfa
sempre sobre o ócio e a voluptuosidade.
II. Mas, não é.
bastante ter uma arte qualquer sem praticá-la.
Uma arte qualquer, pelo menos, mesmo quando não
se pratique, pode ser considerada como ciência;
mas, a virtude afirma-se por completo na prática,
e seu melhor uso consiste em governar a República
e converter em obras as palavras que se ouvem nas
escolas. Nada se diz, entre os filósofos, que
seja reputado como são e honesto, que não o
tenham confirmado e exposto aqueles pelos quais se
prescreve o direito da República. De onde procede
a piedade? De quem a religião? De onde o direito
das gentes? E o que se chama civil, de onde? De
onde a justiça, a fé, a equidade, o pudor, a
continência, o horror ao que é infame e o amor
ao que é louvável e honesto? De onde a força
nos trabalhos e perigos? Daqueles que, informando
esses princípios pela educação, os confirmaram
pelos costumes e os sancionaram com as leis.
Perguntando-se a Xenócrates (9),
filósofo insigne, que conseguiam seus discípulos,
respondeu: "Fazer espontaneamente o que se
lhes obrigaria a fazer pelas leis". Logo, o
cidadão que obriga todos os outros, com as penas
e o império da lei, às mesmas coisas a que a
poucos persuadem os discursos dos filósofos, é
preferível aos próprios doutores. Onde se poderá
encontrar discurso de tanto valor que se possa
antepor a uma boa organização do Estado, do
direito público e dos costumes? Assim, julgo
preferíveis as cidades magnas e dominadoras, como
as denomina Ênio (10),
aos castelos e praças fortes; creio, igualmente,
que, aos que governam a República com sua
autoridade, se deve antepor a sabedoria dos
peritos em negócios públicos. Já que nos
inclinamos a aumentar a herança da humanidade; já
que para isso se encaminham nossos estudos e
trabalhos, estimulados pela própria natureza, e
mais, para tornar mais poderosa e opulenta a vida
do homem, sigamos o caminho que os melhores
empreenderam, e não escutemos as vozes e sinais
que nos chamam por detrás e a que os nossos
predecessores fecharão os ouvidos.
III. A essas razões
tão certas e evidentes se opõem, entre os que
argumentam em contrário, em primeiro lugar, os
trabalhos que acarreta a defesa da República,
impedimento nímio para o homem desperto e
vigilante, e desprezível não só em coisas de
tanta importância, como também nas de menos
interesse, nos estudos, nos assuntos comuns e nos
negócios ordinários. Acrescenta-se o perigo de
perder a vida; opõe-se o temor à morte, torpe e
vergonhoso para o varão íntegro, habituado a
considerar mais miserável consumir-se pela
natureza e pela senitude do que dar valorosamente
à pátria, num momento determinado, o que cedo ou
tarde terá de devolver à natureza.
É nesse lugar que
se julgam fortes e vitoriosos os adversários, ao
alegarem as ingratidões e injustiças sofridas
pelos mais preclaros varões. Aqui apresentam
exemplos tomados dos gregos: Milcíades (11),
dominador e vencedor dos persas, não curado ainda
dos ferimentos que recebera lutando corpo a corpo
em preclara vitória, perdeu a vida, que salvara
das armas inimigas, nas masmorras da cidade; e Temístocles
(12),
proscrito da pátria que lhe devolvia a liberdade,
buscou asilo não nos portos da Grécia por ele
salvos, mas entre os bárbaros que em outros
tempos hostilizara. Não são, certamente, poucos
os exemplos da volubilidade e crueldade dos
atenienses em seus mais preclaros varões;
exemplos que, repetindo-se freqüentemente entre
eles, não falta quem assegure que tenham passado
para a nossa cidade. Recordam-se, a esse propósito,
ora o desterro de Camilo (13),
ora a desdita de Aala (14),
a inveja de Nasica (15),
ora o ostracismo de Lenas (16),
ou a condenação de Opímio (17),
ou a fuga de Metelo, ora o doloroso assassínio de
C. Mário (18),
a morte dos chefes, ora outras muitas desditas que
pouco depois se sucederam. Não deixam de citar
meu próprio nome. E creio mesmo que, imaginando
dever a meus riscos e conselhos a conservação de
sua vida e do seu repouso, amantes e ternos de
meus males se queixam. É estranho que se admirem
nos sacrifícios pela pátria aqueles que a ambição
ou a curiosidade leva aos mares.
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