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Sobre os textos

jarhgarcia.JPG (7436 bytes)Os textos da COLEÇÃO RIDENDO CASTIGAT MORES foram  gentilmente cedido por Nélson Jahr Garcia, que nasceu em São Paulo, formado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Professor da USP, e de outras Faculdades Particulares. Fez mestrado e doutoramento em Ciências da Comunicação na ECA-USP. Escreve livros, artigos. É webdesigner e ebook-publisher.

 

 

 

UTOPIA
THOMAS MORUS
VirtualBooks
Formato:e-book/ PDF
Código:RCM9989
© Ridendo Castigat Mores, 2002
Linguagem: Português
Disponibilidade: Grátis para você para baixar agora!
Software Grátis requerido: Adobe Acrobat Reader

Trechos do livro eletrônico

UTOPIA
THOMAS MORUS

LIVRO PRIMEIRO

     O invencível rei da Inglaterra, Henrique, oitavo do nome, príncipe de um gênio raro e superior, teve, não faz muito tempo, uma querela de certa importância com o sereníssimo Carlos, príncipe de Castela. Eu fui, então, enviado às Flandres, como parlamentar, com a missão de tratar e resolver essa questão.
     Tinha por companheiro e colega, o incomparável Cuthbert Tunstall, a quem o rei confiara a chancela do arcebispado de Cantuária, com os aplausos de todos. Nada direi, aqui, em seu louvor. Não por temer que se acuse a minha amizade de adulação; porém, a sua doutrina e as suas virtudes estão acima dos meus elogios, e sua reputação é tão brilhante que celebrar o seu mérito seria, como diz o provérbio, chover no molhado.
     Encontramos em Bruges, lugar fixado para a conferência, os delegados do príncipe Carlos, todos personagens distintíssimos. O governador de Bruges era o chefe e o cabeça dessa deputação, e Jorge de Tomásia, preboste de Mont-Cassel, era a boca e o coração. Este homem, que deve sua eloqüência, menos ainda à arte que à natureza, passava por um dos mais sábios jurisconsultos em questões de Estado; e sua capacidade pessoal; aliada a longa prática dos negócios, fazia dele um habilíssimo diplomata.
     A conferência já realizara duas sessões e não pudera ainda concordar sobre muitos artigos. Os enviados de Espanha despediram-se, então de nós, para ir a Bruxelas consultar o príncipe. Aproveitei esse lazer e rendí-me a Antuérpia.
     Durante a minha estada nesta cidade conheci muita gente; mas nenhuma relação me foi mais agradável que a de Pedro Gil, antuerpiense de uma grande integridade. Este moço, que desfruta de honrosa posição entre os seus concidadãos, merece, realmente, uma das mais elevadas, já pelos seus conhecimentos, já por sua moralidade, pois, a erudição que possui iguala à qualidade do caráter. Sua alma está aberta a todos; mas nutre por seus amigos tanta benevolência, amor, fidelidade e devotamento que poder-se-ia qualificá-lo, muito justamente, como o perfeito modelo da amizade. Modesto e sem fingimentos, simples e prudente, sabe falar com espírito, e seu gracejo não é nunca uma injúria. Em suma, a intimidade que se estabeleceu entre nós foi tão cheia de prazer e encanto, que suavizou em mim a saudade da pátria, do lar, de minha mulher, de meus filhos, e acalmou as inquietações de uma ausência de mais de quatro meses.
     Um dia, estava eu na Notre-Dame, igreja da grande devoção do povo, e uma das obras primas mais belas da arquitetura; depois de ter assistido ao ofício divino, dispunha-me a voltar para o hotel, quando, de repente, dou de cara com Pedro Gil, que conversava com um estrangeiro já idoso. A tez trigueira do desconhecido, sua longa barba, a capa, quase a cair-lhe, negligentemente, sua aparência e aspecto revelavam um patrão de navio.
     Logo que Pedro deu comigo, aproximou-se, e, saudando-me, afastou-se um pouco de seu interlocutor que iniciava uma resposta, e, a propósito deste, me disse:
     Vede este homem, pois bem, ia levá-lo diretamente à vossa casa.
     - Meu amigo, respondi-lhe, por vossa causa, ele seria benvindo.
     - É mesmo por causa dele, replicou Pedro, se o conhecêsseis. Não há sobre a terra outro ser vivo que possa vos dar detalhes tão completos e tão interessantes sobre os homens e os países desconhecidos. Ora, eu sei que sois excessivamente curioso por essa espécie de notícias.
     - Não tinha adivinhado muito mal, disse eu, então, pois que, logo à primeira vista, tomei o desconhecido por um patrão de navio.
     - Enganai-vos estranhamente; ele navegou, é certo; mas não como Palinuro. Navegou como Ulisses, e até mesmo como Platão. Escutai sua história:
     Rafael Hitiodeu (o primeiro destes nomes é o de sua família) conhece bastante bem o latim e domina o grego com perfeição. O estudo da filosofia ao qual se devotou exclusivamente, fe-lo cultivar a língua de Atenas de preferência à de Roma. E, por isso, sobre assuntos de alguma importância, só vos citará passagens de Sêneca e de Cícero. Portugal é o seu país. Jovem ainda, abandonou seu cabedal aos irmãos; e, devorado pela paixão de correr mundo, amarrou-se à pessoa e à fortuna de Américo Vespúcio. Não deixou por um só instante este grande navegador, durante as três das quatro últimas viagens, cuja narrativa se lê hoje em todo o mundo. Porém, não voltou para a Europa com ele. Américo, cedendo aos seus insistentes pedidos, lhe concedeu fazer parte dos VINTE E QUATRO ficaram nos confins da NOVA-CASTELA. Foi, então, conforme seu desejo, largado nessa margem; pois, o nosso homem não teme a morte em terra estrangeira; pouco se lhe dá a honra de apodrecer numa sepultura; e gosta de repetir este apotegma: O CADÁVER SEM SEPULTURA TEM O CÉU POR MORTALHA; HÁ POR TODA A PARTE CAMINHO PARA CHEGAR A DEUS. Este caráter aventureiro podia ter-lhe sido fatal, se a Providência divina não o tivesse protegido. Como quer que fosse, depois da partida de Vespúcio ele percorreu, com cinco castelhanos, uma multidão de países, desembarcou em Taprobana, como por milagre, e. daí chegou em Calicut, onde encontrou navios portugueses que o reconduziram ao seu país, contra todas as expectativas.
     Assim que Pedro acabou essa narrativa, agradeci-lhe o empenho e solicitude em me fazer desfrutar conversação com homem tão extraordinário; depois, abordei Rafael, e, após as saudações e cortesias habituais num primeiro encontro, levei-o à minha casa com Pedro Gil. Aí, sentados no jardim, sobre um banco de relva, a conversa começou.
     Rafael me contou como, após a partida de Vespúcio, ele e seus companheiros, com afabilidade e bons serviços, grangearam a amizade dos indígenas, e como viveram com eles em paz e na melhor harmonia. Houve mesmo um príncipe, cujo pais e nome me escapam, que lhes deu proteção a mais afetuosa. Sua generosidade os proveu de barcos, carros e tudo mais de que necessitavam para continuar a viagem, Um guia fiel teve ordem de acompanhá-los e apresentá-los aos príncipes com excelentes recomendações.
     Depois de vários dias de marcha descobriram burgos e cidades bem administradas, nações inúmeras e Estados poderosos.
     No Equador, acrescentava Hitiodeu, de uma parte e de outra, no espaço compreendido pela órbita do sol, não viram senão vastas solidões eternamente devoradas por um céu de fogo. Ai, tudo os aturdia de horror e espanto. A terra inculta tinha apenas como habitantes os animais mais ferozes, os reptis mais terríveis, ou homens mais selvagens que os animais. Afastando-se do Equador, a natureza se abrandava pouco a pouco; o calor é menos abrasador, a terra se cobre de uma ridente verdura e os animais são menos selvagens. Mais longe ainda, aparecem povos, cidades, povoações, em que se faz um comércio ativo por terra e por mar, não somente no interior e com as fronteiras, mas entre nações muito distantes.
     Estas descobertas inflamavam o ardor de Rafael e de seus companheiros. E o que alimentava essa paixão pelas viagens era o fato de serem admitidos sem dificuldade no primeiro navio a partir, qualquer que fosse o seu destino.
     As primeiras embarcações que viram eram chatas, as velas formadas de vimes entrelaçados ou de fo1has de papiros, e algumas de couro. Em seguida, encontraram embarcações terminadas em ponta, as velas feitas de cánamo; e finalmente embarcações inteiramente semelhantes às nossas, e hábeis nautas conhecendo muito bem o céu e o mar, mas sem nenhuma idéia da bússola.
     Esses bons homens ficaram pasmados de admiração e cheios do mais vivo reconhecimento, quando nossos castelhanos lhes mostraram uma agulha imantada. Antes, era tremendo que se aventuravam ao mar, e, ainda assim, atreviam-se a navegar apenas no verão. Hoje, bússola em mão, arrostam os ventos e o inverno mais confiados do que seguros; pois, se não tomam cuidado, essa bela invenção que parecia dever trazer-lhes tantos benefícios, poderá transformar-se, por sua imprudência, em uma fonte de males.
     Seria muito extenso se relatasse, aqui, tudo o que Rafael viu em suas viagens. Aliás, não é essa a finalidade desta obra. Completarei talvez a sua narrativa num outro livro em que darei detalhes, principalmente, dos hábitos, costumes e sábias instituições dos povos civilizados, que freqüentou Rafael.

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