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Para
uma crítica da economia política
Karl Marx
- Sumário
- *
1. Produção, consumo, distribuição, troca
(circulação)
- *
2. Relação geral entre a produção, por um
lado, e a distribuição, a troca e o consumo,
por outro
- *
3. O método da economia política
- *
4. Produção. Meios (força) de produção e
relações de produção. Relações de produção
e relações de circulação
PRODUÇÃO,
CONSUMO, DISTRIBUIÇÃO, TROCA (CIRCULAÇÃO)
a)
O objeto a considerar em primeiro lugar é a produção
material.
Indivíduos
que produzem em sociedade, ou seja a produção de
indivíduos socialmente determinada: eis
naturalmente o ponto de partida. O caçador e o
pescador individuais e isolados, com que começam
Smith e Ricardo, fazem parte das ficções
pobremente imaginadas do século XVIII; são
robinsonadas que, pese embora aos historiadores da
civilização, não exprimem de modo nenhum uma
simples reação contra um refinamento excessivo e
um regresso aquilo que muito erradamente se
entende como vida natural. O "contrato
social" de Rousseau, que estabelece conexões
e laços entre sujeitos independentes por
natureza, tampouco se baseia em tal naturalismo.
Este naturalismo não é senão a aparência, e
aparência puramente estética, das grandes e
pequenas robinsonadas. Na realidade, trata-se
antes de uma antecipação da "sociedade
civil", que se preparava desde o século XVI
e que no século XVIII marchava a passos de
gigante para a maturidade. Nesta sociedade de
livre concorrência, cada indivíduo aparece
desligado dos laços naturais, etc., que, em épocas
históricas anteriores, faziam dele parte
integrante de um conglomerado humano determinado e
circunscrito. Este indivíduo do século XVIII é
produto, por um lado, da decomposição das formas
de sociedade feudais, e por outro, das novas forças
produtivas desenvolvidas a partir do século XVI.
E, aos profetas do século XVIII,
Quanto
mais recuamos na história, mais o indivíduo - e
portanto o produtor individual - nos aparece como
elemento que depende e faz parte de um todo mais
vasto; faz parte, em primeiro lugar, e de maneira
ainda inteiramente natural, da família e dessa
família ampliada que é a tribo; mais tarde, faz
parte das diferentes formas de comunidades
provenientes do antagonismo entre as tribos e da
fusão destas. Só no século XVIII, na
"sociedade civil", as diversas formas de
conexão social aparecem face ao indivíduo como
simples meios para alcançar os seus fins
privados, como uma necessidade exterior a ele.
Contudo, a época que gera este ponto de vista,
esta idéia do indivíduo isolado, é exatamente a
época em que as relações sociais (universais,
segundo esse ponto de vista) alcançaram o seu
mais alto grau de desenvolvimento.
O
homem é, no sentido mais literal, um zoon
politikon (animal político); não é simplesmente
um animal social, é também um animal que só na
sociedade se pode individualizar. A produção
realizada por um individuo isolado, fora do âmbito
da sociedade - fato excepcional, mas que pode
acontecer, por exemplo, quando um indivíduo
civilizado, que potencialmente possui já em si as
forças próprias da sociedade, se extravia num
lugar deserto - é um absurdo tão grande como a
idéia de que a linguagem se pode desenvolver sem
a presença de individuos que vivam juntos e falem
uns com os outros. Não vale a pena determo-nos
mais neste ponto. Nem seria sequer de abordar a
questão, se esta tolice - que tinha sentido e razão
de ser para os homens do século XVIII -não
tivesse sido novamente introduzida, com a maior
das seriedades, na economia política moderna por
Bastiat, Carey, Proudhon, etc. claro que, para
Proudhon, entre outros, se torna bastante cômodo
explicar a origem de uma relação econômica cuja
gênese histórica desconhece em termos de
filosofia da história; e, assim, recorre aos
mitos: essa relação foi uma idéia súbita e
acabada que ocorreu a Adão ou Prometeu, os quais,
em seguida a introduziram, etc. Não há nada mais
enfadonho e árido do que o locus communus em delírio.
Por
conseguinte, quando falamos de produção,
trata-se da produção num determinado nível de
desenvolvimento social, trata-se da produção de
indivíduos que vivem em sociedade. Assim poderia
parecer que, para falarmos de produção, seria
necessário: ou descrever o processo de
desenvolvimento histórico nas suas diferentes
fases; ou então declarar de inicio que nos
referimos a uma determinada época histórica bem
definida, como por exemplo à produção burguesa
moderna, que é na realidade o nosso tema específico.
Não obstante, todas as épocas da produção têm
certos traços e certas determinações comuns. A
produção em geral é uma abstração, mas uma
abstração que possui um sentido, na medida em
que realça os elementos comuns, os fixa e assim
nos poupa repetições. Contudo, esses caracteres
gerais ou esses elementos comuns, destacados por
comparação, articulam-se de maneira muito
diversa e desdobram-se em determinações
distintas. Alguns desses caracteres pertencem a
todas as épocas; outros, apenas a algumas. Certas
determinações serão comuns às épocas mais
recentes e mais antigas. São determinações sem
as quais não se poderia conceber nenhuma espécie
de produção. Certas leis regem tanto as línguas
mais desenvolvidas como outras mais atrasadas; no
entanto, o que constitui a sua evolução são
precisamente os elementos não gerais e não
comuns que possuem. indispensável fazer ressaltar
claramente as características comuns a toda a
produção em geral, e isto porque, uma vez que são
sempre idênticos o sujeito (a humanidade) e o
objeto (a natureza), correríamos o risco de
esquecer as diferenças essenciais. Neste
esquecimento reside, por exemplo, toda a
"sapiência" dos economistas poí iticos
modernos, os quais tentam demonstrar que as relações
sociais existentes são harmoniosas e eternas. Um
exemplo. Não pode haver produção se.m um
instrumento de produção, nem que seja
simplesmente a mão; não pode haver produção
sem haver um trabalho acumulado no passado, mesmo
que esse trabalho consista na habilidade que, pelo
exercício repetido, se desenvolveu e concentrou
na mão do selvagem. O capital também é um
instrumento de produção; o capital também é um
trabalho passado, objetivado. Logo, o capital
seria uma relação natural, universal e eterna;
mas só o seria se puséssemos de parte o elemento
especifico que transforma "instrumento de
produção" e "trabalho acumulado"
em capital. Assim, toda a história das relações
de produção aparece, por exemplo em Carey, como
uma falsificação malevolamente organizada pelos
governos.
Se
não existe produção em geral, também não há
uma produção geral. A produção é sempre um
ramo particular da produção - por exemplo, a
agricultura, a criação de gado, a manufatura -
ou uma totalidade. Porém, a economia política não
é a tecnologia. Analisaremos mais tarde a relação
entre as determinações gerais da produção, num
dado estágio social, e as formas particulares da
produção.
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