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O
Príncipe
Maquiavel
APRESENTAÇÃO
Nicolaus
Maclavellus, ou Nicoló Macchiavelli foi um gênio.
Ou alguém conhece escritor dos anos 1500 que seja
tão atual quanto ele? Um ex-ministro, poderosíssimo,
deste país confessou, publicamente, que "O
Príncipe" era seu livro de cabeceira. Falo
sobre Delfim Netto. O Fernando Henrique, habituado
a dizer bobagens, nunca confessou, mas basta ver
suas atitudes e decisões para verificar que
"O Príncipe " é mais que um livro de
cabeceira, é Bíblia. As pessoas, neste país não
lêem, ou o fazem mal. "O príncipe"
deve ser analisado com cuidado. De forma indireta,
é um libelo pela democracia e libertarismo.
Prestem atenção, aprenderão muito e quem sabe,
encontrarão o caminho da liberdade. Infelizmente
nossos políticos não entenderam, ou não querem.
Nélson Jahr
Garcia
AO
MAGNÍFICO LORENZO DE MEDICI
NICOLÓ
MACHIAVELLI
Costumam,
o mais das vezes, aqueles que desejam conquistar
as graças de um Príncipe, trazer-lhe aquelas
coisas que consideram mais caras ou nas quais o
vejam encontrar deleite, donde se vê amiúde
serem a ele oferecidos cavalos, armas, tecidos de
ouro, pedras preciosas e outros ornamentos
semelhantes, dignos de sua grandeza. Desejando eu,
portanto, oferecer-me a Vossa Magnificência com
um testemunho qualquer de minha submissão, não
encontrei entre os meus cabedais coisa a mim mais
cara ou que tanto estime, quanto o conhecimento
das ações dos grandes homens apreendido através
de uma longa experiência das coisas modernas e
uma contínua lição das antigas as quais tendo,
com grande diligência, longamente perscrutado e
examinado e, agora, reduzido a um pequeno volume,
envio a Vossa Magnificência.
E
se bem julgue esta obra indigna da presença de
Vossa Magnificência, não menos confio que deva
ela ser aceita, considerado que de minha parte não
lhe possa ser feito maior oferecimento senão o
dar-lhe a faculdade de poder, em tempo assaz
breve, compreender tudo aquilo que eu, em tantos
anos e com tantos incômodos e perigos, vim a
conhecer. Não ornei este trabalho, nem o enchi de
períodos sonoros ou de palavras pomposas e magníficas,
ou de qualquer outra figura de retórica ou
ornamento extrínseco, com os quais muitos
costumam desenvolver e enfeitar suas obras; e isto
porque não quero que outra coisa o valorize, a não
ser a variedade da matéria e a gravidade do
assunto a tornarem-no agradável. Nem desejo se
considere presunção se um homem de baixa e ínfima
condição ousa discorrer e estabelecer regras a
respeito do governo dos príncipes: assim como
aqueles que desenham a paisagem se colocam nas
baixadas para considerar a natureza dos montes e
das altitudes e, para observar aquelas, se situam
em posição elevada sobre os montes, também,
para bem conhecer o caráter do povo, é preciso
ser príncipe e, para bem entender o do príncipe,
é preciso ser do povo. Receba, pois, Vossa
Magnificência este pequeno presente com aquele
intuito com que o mando; nele, se diligentemente
considerado e lido, encontrará o meu extremo
desejo de que lhe advenha aquela grandeza que a
fortuna e as outras suas qualidades lhe prometem.
E se Vossa Magnificência, das culminâncias em
que se encontra, alguma vez volver os olhos para
baixo, notará quão imerecidamente suporto um
grande e contínuo infortúnio.
CAPÍTULO
I
DE
QUANTAS ESPÉCIES SÃO OS PRINCIPADOS E DE QUE
MODOS SE ADQUIREM
(QUOT
SINT GENERA PRINCIPATUUM ET QUIBUS MODIS
ACQUIRANTUR)
Todos
os Estados, todos os governos que tiveram e têm
autoridade sobre os homens, foram e são ou repúblicas
ou principados. Os principados são: ou hereditários,
quando seu sangue senhorial é nobre há já longo
tempo, ou novos. Os novos podem ser totalmente
novos, como foi Milão com Francisco Sforza, ou o
são como membros acrescidos ao Estado hereditário
do príncipe que os adquire, como é o reino de Nápoles
em relação ao rei da Espanha. Estes domínios
assim obtidos estão acostumados, ou a viver
submetidos a um príncipe, ou a ser livres, sendo
adquiridos com tropas de outrem ou com as próprias,
bem como pela fortuna ou por virtude.
DOS
PRINCIPADOS
(De
Principatibus)
CAPÍTULO
II
DOS
PRINCIPADOS HEREDITÁRIOS
(DE
PRINCIPATIBUS HEREDITARIIS)
Não
cogitarei aqui das repúblicas porque delas tratei
longamente em outra oportunidade. Voltarei minha
atenção somente para os principados, irei
delineando os princípios descritos e discutirei
como devem ser eles governados e mantidos. Digo,
pois, que para a preservação dos Estados hereditários
e afeiçoados à linhagem de seu príncipe, as
dificuldades são assaz menores que nos novos,
pois é bastante não preterir os costumes dos
antepassados e, depois, contemporizar com os
acontecimentos fortuitos, de forma que, se tal príncipe
for dotado de ordinária capacidade sempre se
manterá no poder, a menos que uma extraordinária
e excessiva força dele venha a privá-lo; e, uma
vez dele destituído, ainda que temível seja o
usurpador, volta a conquistá-lo.
Nós
temos na Itália, como exemplo, o Duque de Ferrara
que não cedeu aos assaltos dos venezianos em 1484
nem aos do Papa Júlio em 1510, apenas por ser
antigo naquele domínio. Na verdade, o príncipe
natural tem menores razões e menos necessidade de
ofender: donde se conclui dever ser mais amado e,
se não se faz odiar por desbragados vícios, é lógico
e natural seja benquisto de todos. E na antigüidade
e continuação do exercício do poder, apagam-se
as lembranças e as causas das inovações, porque
uma mudança sempre deixa lançada a base para a
ereção de outra.
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