Caracteres
Jean de La Bruyère
PREFÁCIO
Devolvo
ao público o que ele me emprestou; dele tomei a
matéria desta obra; justo é que ao terminá-la,
com todo o respeito à verdade de que sou capaz, e
que ele me merece, faça-lhe agora esta restituição.
Pode mirar-se com alma neste retrato que lhe fiz,
tomado do natural; e se reconhecer em si alguns
dos defeitos que aponto, corrija-os. É o único
fim que se deve ter em vista ao escrever, e também
o sucesso com que menos se deve contar.
Mas
como os homens não aborrecem o vício, por isso
mesmo é preciso não se cansar também de reprová-los:
talvez fossem piores se viessem a faltar-lhes
censores ou críticos: é isso que faz com que se
exorte e se escreva.
O
orador e o escritor não saberiam vencer a alegria
que têm de ser aplaudidos: mas deviam se
envergonhar caso não procurassem, com discursos e
escritos, mais do que elogios; além de que a
aprovação mais certa e menos equívoca é a
mudança de costumes e a reforma daqueles que os lêem
ou que os ouvem. Não devemos falar, não devemos
escrever, senão para instrução; e se acontecer
agradarmos, nem por isso devemos arrepender-nos,
quando o sucesso servir para insinuar e tornar
aceitáveis as verdades que instruem. Quando,
pois, escorregarem num livro alguns pensamentos e
reflexões que não tenham a veemência, nem a
forma, nem a vivacidade de outros, ainda que pareçam
incluídos para variar, descansar o espírito,
torná-lo mais presente, mais atento ao que se
segue, quando não sejam suaves, naturais,
instrutivos, acomodados ao simples do povo — que
não é permitido desprezar -, pode o leitor
condená-los e deve o autor prescrevê-los: eis a
regra.
Há
outra, que me interessa ver seguida: é não
perder de vista o meu título, e pensar sempre,
durante toda a leitura desta obra, que eu descrevo
caracteres e costumes deste século: porque se bem
me inspire freqüentemente na corte de França, não
se pode restringi-los a uma só corte, nem limitá-los
a um só país, sem que muito perca o livro de seu
alcance e utilidade, se afaste do plano que me
tracei — pintar os homens em geral -, como das
razões que entram na ordem dos capítulos e uma
certa seqüência insensível nas reflexões que
os compõem. Depois dessa precaução tão necessária,
cujas conseqüências tão bem se percebem, creio
poder protestar contra toda mágoa, toda queixa,
toda interpretação maligna, toda falsa aplicação
e toda censura; contra os severos impertinentes e
os leitores mal-intencionados.
É
preciso saber ler, e em seguida silenciar, ou
poder relatar o que se leu, e nem mais nem menos
do que aquilo que se leu; e se às vezes se pode
fazer isso, não basta; é preciso ainda querer
fazê-lo. Sem essas condições, que um autor
exato e escrupuloso tem o direito de exigir de
certos espíritos, como única recompensa do seu
trabalho, duvido que ele deva continuar a
escrever, salvo se preferir sua própria satisfação
ao aproveitamento alheio e ao zelo da verdade.
Confesso, aliás, que desde o ano de 1690, e antes
da quinta edição, hesitei entre a impaciência
de dar ao meu livro mais amplitude e melhor forma
introduzindo novos caracteres, o temor de que
alguns dissessem: não acabam mais esses
Caracteres, e não veremos mais outra coisa desse
escritor? Por um lado, pessoas circunspectas me
diziam.: a matéria é sólida, útil, agradável,
inesgotável; viva muito tempo, e trate-a sem
interrupção enquanto viver: que poderia fazer de
melhor? Não há ano em que a estultícia dos
homens não possa dar um volume.
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