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As
Opiniões e as Crenças
Gustave Le Bon
APRESENTAÇÃO
Gustave
Le Bon (1841-1931) foi o fundador da Psicologia
Social.
Escreveu inúmeras
obras, dentre as quais se destacam: "A
psicologia das multidões", "A
psicologia do socialismo", "A psicologia
das revoluções".
Apresentamos um dos
grandes trabalhos: "As opiniões e as crenças".
Dificilmente se poderia estudar temas como: teoria
do conhecimento, ideologia, religiões, superstições,
comportamento das massas, propaganda, persuasão
sem estudar e se apoiar em Le Bon.
Em "As opiniões
e as crenças", depois de discutir os
recursos metodológicos de análise da Psicologia,
Le Bon explica o papel do prazer e da dor, para
então avaliar as características do consciente e
inconsciente. De forma brilhante, apresenta as várias
formas de lógica: biológica, afetiva, coletiva,
mística e racional.
Dai em diante, passa
a analisar as opiniões e crenças, sua gênese,
desenvolvimento, transformação, propagação. Não
deixa de discutir a morte das crenças.
É uma obra de incrível
atualidade, talvez tenham conseguido aprofundá-la,
superar ainda não.
Nélson
Jahr Garcia
CAPÍTULO
I
OS CICLOS DA CRENÇA E DO CONHECIMENTO
1
– As dificuldades do problema da crença.
O
problema da crença, por vezes confundido com o do
conhecimento é, entretanto, muito distinto dele.
Saber e crer são coisas diferentes, que não têm
a mesma gênese.
Das opiniões e das
crenças deriva, com a concepção da vida, o
nosso modo de proceder, e por conseguinte a maior
parte dos acontecimentos da história. Elas são,
como todos os fenômenos, regidas por certas leis,
mas essas leis não estão ainda determinadas.
O domínio da crença
sempre pareceu repleto de mistérios. É por isso
que os livros sobre as origens da crença são tão
pouco numerosos, ao passo que são inúmeros os
que se referem ao conhecimento.
As raras tentativas
empreendidas no sentido de elucidar o problema da
crença bastam, aliás, para mostrar que ele tem
sido pouco compreendido Aceitando a velha opinião
de Descartes, os autores repetem que a crença é
racional e voluntária. Um dos objetivos desta
obra será precisamente mostrar que ela não é
voluntária nem racional.
A dificuldade do
problema da crença não havia passado
despercebida ao grande Pascal. Em um capítulo
relativo à arte de persuadir, ele justamente
observa que os homens "são quase sempre
levados a crer, não pela prova, mas pelo
agrado". "Mas, acrescenta ele, a maneira
de agradar é incomparavelmente mais difícil,
mais sutil, mais útil e mais admirável: assim,
se disso não trato, é porque não sou capaz de
fazê-lo; e sinto-me de tal modo incapaz que julgo
ser inteiramente impossível".
Graças às
descobertas da ciência moderna, pareceu-me possível
o problema perante o qual Pascal recuara.
A sua solução dá-nos
a chave de muitas questões importantes. Como, por
exemplo, se estabelecem as opiniões e as crenças
religiosas ou políticas? Por que se observam,
simultaneamente, em certos espíritos, ao lado de
elevadíssima inteligência, superstições muito
ingênuas? Por que é tão fraca a razão para
modificar as nossas convicções sentimentais? Sem
uma teoria da crença, essas questões e muitas
outras ficam insolúveis. Somente com o auxílio
da razão, não poderiam ser explicadas.
Se o problema da
crença tem sido tão mal compreendido pelos psicólogos
e pelos historiadores, é porque eles, têm
tentado interpretar com os recursos da lógica
racional fenômenos que ela jamais regeu. Veremos
que todos os elementos da crença obedecem a
regras lógicas, muito seguras, porém
inteiramente alheias às que são empregadas pelo
sábio nas suas investigações.
Esse problema
atraiu-me constantemente a atenção desde que
iniciei os meus estudos históricos. A crença se
me afigura ser, na realidade, o principal fator da
história. Como, porém, poderiam ser explicados
fatos tão extraordinários qual as fundações de
crenças, que determinam a criação ou o
desaparecimento de civilização pujantes?
Tribos nômades,
perdidas no fundo da Arábia, adotam uma religião
que um iluminado lhes ensina, e graças a ela
fundam, em menos de cinqüenta anos, um império tão
vasto quanto o de Alexandre, ilustrado por uma
esplêndida manifestação de maravilhosos
monumentos.
Poucos séculos
antes, povos semi-bárbaros se convertiam à fé
pregada por apóstolos que vinham de obscuros
lugares da Galiléia, e sob a luz regeneradora
dessa crença, o velho mundo desabava, substituído
por uma civilização inteiramente nova, de que
cada elemento permanece impregnado da lembrança
do Deus que o originou.
Cerca de vinte séculos
mais tarde, a antiga fé é abalada, estrelas
luminosas surgem no céu do pensamento, um grande
povo se subleva, pretendendo romper os elos do
passado. A sua fé destruidora, porém possante,
confere-lhe, a despeito da anarquia em que essa
grande Revolução o submerge a força necessária
para dominar a Europa armada e atravessar
vitoriosamente todas as suas capitais.
Como se explica esse
estranho poder das crenças? Porque se submete o
homem, subitamente, a uma fé que ignorava na véspera,
e porque o eleva ela tão prodigiosamente, acima
de si mesmo? De que elementos psicológicos surgem
esses mistérios? É o que procuraremos elucidar.
O problema do
estabelecimento e da propagação das opiniões, e
sobretudo das crenças, apresenta aspectos tão
maravilhosos que os sectários de cada religião
invocam a sua origem e a sua difusão como provas
de uma procedência divina. Observam também que
essas crenças são adotadas a despeito do mais
evidente interesse daqueles que as aceitam.
Compreende-se, por exemplo, sem dificuldade, que o
Cristianismo se haja. propagado facilmente entre
os escravos e todos os deserdados, ao quais
prometia uma felicidade eterna. Mas, que forças
secretas podiam determinar um cavalheiro romano,
um personagem consular, a despojar-se dos seus
bens e afrontar vergonhosos suplícios, para
adotar uma religião nova e vedada pelas leis?
Seria impossível
evocar a fraqueza intelectual das homens que
voluntariamente se submetiam a tal jugo,
porquanto, desde a antigüidade até aos nossos
dias, se têm observado os mesmos fenômenos nos
espíritos mais cultos.
Uma teoria da crença
pode unicamente ser variável quando fornece a
explicação de todas essas coisas. Deve,
sobretudo, fazer compreender como sábios ilustres
e reputados pelo seu espírito crítico aceitam
lendas cuja infantil ingenuidade desperta o
sorriso. Facilmente concebemos que Newton, Pascal,
Descartes, vivendo num meio social saturado de
certas convicções, sem discussão aí tenham
admitido, como admitiam as leis inelutáveis da
natureza. Mas como, nos nossos dias, em meios
sobre os quais a ciência projeta tanta luz, não
se acham essas mesmas crenças inteiramente
desagregadas? Por que as vemos nós, quando por
acaso se desagregam, originar outras ficções,
maravilhosas, como prova a propagação das
doutrinas ocultas, espirituais etc., entre sábios
eminentes? A todas essas perguntas deveremos,
igualmente, responder.
2.
Em que a crença difere do conhecimento.
Procuremos
primeiramente precisar o que constitui crença e
em que ela se distingue do conhecimento.
Uma crença é um
ato de fé de origem inconsciente, que nos força
a admitir em bloco uma idéia, uma opinião, uma
explicação, uma doutrina. A razão é alheia,
como veremos, à sua formação. Quando ela tenta
justificar a crença, esta já se acha formada.
Tudo quanto é
aceito por um simples ato de fé deve ser
qualificado de crença. Se a exatidão da crença
é verificada mais tarde pela observação e a
experiência, cessa de ser uma crença e torna-se
um conhecimento.
Crença e
conhecimento constituem dois modos de atividade
mental muito distintos e de origem muito
diferentes: A primeira é uma intuição
inconsciente provada por certas causas
independentes da nossa vontade; a segunda
representa uma aquisição consciente, edificada
por métodos exclusivamente racionais, tais como a
experiência e a observação Foi somente numa época
adiantada da sua história que a humanidade,
imersa no mundo da crença, descobriu o
conhecimento. Quando aí se penetra, reconhece-se
que todos os fenômenos atribuídos outrora às
vontades de seres superiores se apresentavam sob a
influência de leis inflexíveis.
Pela simples
circunstância de que o homem se iniciava no ciclo
do conhecimento, todas as suas concepções do
universo se transformaram.
Mas, nessa nova
esfera, não foi ainda possível penetrar muito
longe. A ciência reconhece cada dia que nas suas
descobertas há muitas coisas desconhecidas As
realidades mais precisas ocultam mistérios. Um
mistério é a alma ignorada das coisas.
A ciência se acha
ainda envolta nessas trevas e, atrás dos
horizontes que ela atinge, outros aparecem,
perdidos num infinito que parece recuar sempre.
Nesse grande domínio,
que nenhuma filosofia pode ainda elucidar, jaz o
reino dos sonhos, repleto de esperanças; que
nenhum, raciocínio poderia destruir. Crenças
religiosas, crenças políticas, crenças de toda
espécie aí haurem uma força ilimitada. Os
fantasmas-temidos que o habitam, são criados pela
fé.
Saber e crer
permanecerão sempre como coisas distintas. Ao
passo que a aquisição da menor verdade científica
exige enorme labor, a posse de uma certeza baseada
unicamente na fé não pede nenhum trabalho. Todos
os homens possuem crenças; muito poucos se elevam
até ao conhecimento.
O mundo da crença
possui a sua lógica e as suas leis. O sábio tem
sempre tentado em vão penetrar nessa esfera com
os seus métodos. Ver-se-á nesta obra porque
perde ele todo o espírito crítico, quando se
insinua no ciclo da crença e aí se vê somente
perante as mais falazes ilusões.
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