ENTREVISTAS



seta-vai.gif (422 bytes)

Rodrigo de Souza Leão entrevista Wilmar Silva

1. Você, Wilmar Silva, é original da zona do rio Paranaíba, minas gerais. Hoje está em Belo Horizonte. O que ainda guarda do garoto original de Paranaíba e o que traz dele para poesia? A poesia é o não é uma atividade lúdica?
 
eu, por origem e ascendência do instinto, sem perder de vista o poema como linguagem, penso que o adjetivo lúdico é margem de minha vontade, poesia no sentido de revelação da existência, poesia renhida do próprio corpo, do sangue, da víscera, da medula, do pensamento vivo, redivivo, da cabeça, eu escrevo como quem capina à enxada o papel, esse lavrador que lavra a palavra e contém a cólera da invernada sou eu, como pensar em minha poesia no espaço lúdico, a fonte da criação, livre, errante, etc, essa laminação lúdica de pensar o poeta como o sujeito que habita a terra do sonho e apenas com a lua e ou com o sol faz sexo, é mesmo a pegada fora da minha estrada, eu tenho o meu próprio nome e tenho também reflexo e faço parte da realidade, poesia como nave suspensa, na superfície, no plano de sempre acertar não me interessa, etc, escrevo mesmo é com a genealogia da carne, tórrida, em combustão, o fluxo do sangue -, sim, em rio paranaíba cabem os verbos guardar e trazer, sou mesmo afluente de meu liquido amniótico, posso olhar no espelho, poço, açude, rio, e olhar meu rosto de frente, de lados, de trás, penetrar e arrancar-me da cisterna ancestral, a natureza, o sexo, o cio, o coito, a água, a tempestade, a força, a terra, o fogo, o espaço, o tempo, os bichos, os pássaros, a montanha, o ermo, o outono, etc, como impedir a presença da vida e da morte rediviva em meu corpo, meu ser, meu pensamento, o engendrar  para fora desse argumento, mais que lúdica, acredito na arte como educação e lenitivo à vida, arte hps, arte uti, poema nesse cadafalso,
 
2. 16 poetas se reuniram para lançar a coletânea FENDA. O que estes poetas têm em comum? Qual verve é a nova ou é a multiplicidade a característica do novo daqui para frente?
 
fenda 16 poetas vivos tem por natureza e força livre, a unidade da diferença, água no açude é apenas água no açude, o fim da fome é comer, é preciso praticar o poema, poema com orgasmo que me faça sentir a força temporal da vida, isso sim, isso é que almejo colar os olhos, lascivo, entrar para dentro da letra e escavar a alma, a eiva, etc, falta mesmo é sangue, é pé na estrada, é vontade para transbordar, perder a cabeça, fender o escuro e de lá, puxar, fosfóreo, mais um cão sem plumas, trazer a
semeeira, eu que tenho o meu próprio nome, nome que tem silva e silva, por favor, não me confunda com escritor e também não me chame de poeta no sentido mais bem comportado da vala contemporânea, sou contra e posso dizer que sou contra e mostrar meu corpo desnudo, minha alma, minha essência, e mais: também não enxergo dissonâncias, parece-me que a escrita contemporânea foi tomada pela necessidade de sempre ser igual e trazer como bandeira nacional o ranço da vanguarda, ou fingir o pós-moderno na língua do parnasiano  fenda 16 poetas vivos traz a ilíada de algum rumor, cicio, alaridos, vozes,
 
3. Você deve lançar Anu pela Virtual Books. O que está lhe encantando na internet?
 
anu, não-texto de biopoesia, saiu em livro pela orobó edições e foi lançado em agosto de 2001, no salão do livro em belo horizonte, on-line pela virtual books a partir de abril de 2002, aparece invenção caipira, com imagens de curta-metragem que fiz e apresentei no colóquio e lançamento de fenda 16 poetas vivos, em março de 2002, sim, a internet, é mesmo a frente mst que se abre, mas como colocar a montanha com as árvores, os pássaros, os bichos, o barulho da terra, lá, escavado, fustigado, lá dentro, enfim, mas o poema, ou qualquer arte também fica muito a desejar, parece-me que a corja contemporânea ainda não conseguiu olhar para o espelho e enxergar as feridas e as cicatrizes deixadas pelo aluvião concreto, marginal,
 
4. O que há de particular na cena de Belo Horizonte que não existe em outros cantos do Brasil? Ou o isolamento é tanto que só dá para falar da cena de Belo?
 
embora sendo a província do sempre curral, curral  palavra que faz parte da minha origem e do meu espaço geográfico, hoje delirantemente lúcido em meu corpo, na cabeça, no sangue, na medula, no pensamento -, é fácil dizer que belo horizonte é igual ao rio de janeiro ou mesmo a são paulo ou ainda a curitiba, por exemplo, como também seria fácil dizer que existe diferença, sim, cá, vivendo desde 1986, ano em que lancei "lágrimas & orgasmos" pela famigerada arte quintal, sou o diferente e estranho na cidade, cá/ ou em qualquer lugar, sou fora da corja, minha origem, minha poesia, minha política, minha língua, minha vértebra, meu falo/fala tem o meu nome, nome com sangue e seiva, sou diferente não por ser diferente apenas, sou diferente por fazer a poesia que traz a secreção da língua, a linguagem da noite escura, o corpo, a corporeidade, o real e supra-real, o eu mais visceral, etc, etc, etc, o átomo incandescente, fosfóreo, lanterna que ascenda,
 
5. O que o fato de ser ator contribui na sua dicção de poeta?
 
sou poeta por natureza, sangue, caráter, índole, etc e também sou apaixonado por teatro e sempre fiz teatro na minha vida, desde criança, escrevi e encenei a minha primeira peça quando tinha 13 anos sobre a inconfidência mineira, fiz maria clara machado quase toda, plínio marcos e ariano suassuna, etc, e muitos textos escritos por mim, tudo encenado ao longo da adolescência quando morava em ibiá, triângulo, com o grupo teatral de ibiá, bem mambembe, além da própria cidadezinha, também apresentando em campos altos, são gotardo, araxá, patrocínio, monte carmelo, coromandel, rio paranaiba, etc, sempre fui um bandeirante, cá/em belo horizonte fiz nelson rodrigues, e depois só com poemas, cilada, pardal de rapina, anu, cilada, desmarcado, afrorimbaudelia, etc, enfim, tenho vivência, paixão/compaixão pelo teatro, jamais esse teatro comercial onde o produtor/diretor/ator/espectador são a mesma coisa, gosto de pensar, o pensamento, o corpo, a profusão, a libido, a natureza em estado de cio, o outono, etc, minha dicção de poeta é a dicção de tudo que fui e continuo sendo ainda e sempre, tenho o meu nome, tenho uma família, sou sim, o errante, mas venho de rio paranaíba e, lá estive feito bicho feito pássaro sendo menino, eu wilmar silva, escave os nomes de meus livros, lágrimas & orgasmos, águas selvagens, dissonâncias, moinho de flechas, solo de colibri, cilada, çeiva, anu, etc, etc,

seta-volta.gif (418 bytes)

1   2   3

»Obra

»Vida


 


 
Copyright© 2000   VIRTUALBOOKS  Todos os direitos reservados.  All rights reserved