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CHEGAR LÁ
E agora quero a palavra reduzida ao
simples gesto de
agarrar alguma coisa, pura denotação, linguagem referência,
mão estendida apontando para esses pedaços de realidade -
ou então a festa com todos os seus fantasmas sentados no
sofá de absinto enquanto sangram os dedos da memória, tudo
verdadeiro no limite do que possa ser verdade, o caderno
escrito de trás para diante e o livro lido a partir da
última página, e também poderia falar das nuvens de vapor e
cortinas de fumaça nos quartos, e narrar a
história
completa das febres tropicais - porém só nós dois fomos
capazes de nos mover nesse plano intermediário em que
realidade e sonho se confundem, tocados pela sugestão de
outra cena ou situação. Essência, é esse o nome da nossa
transação. Essência, essência! - grita a legião dos Irreais
desde o bojo de sua existência provável. Essência,
o
verdadeiro nome do jogo de mutações. Desnecessário falar em
alucinações - é como atravessar uma parede invisível, e já
estamos lá. O texto febril. As luzes acesas. As luzes
acesas. As luzes - acesas. Por exemplo - mas o número de
exemplos é maior que toda a existência - por exemplo as
luzes acesas, rebatidas meio cruamente pelos azulejos
brancos iluminando nossos corpos enquanto
nós nos
preparávamos para começar mais um jogo amoroso. Lembro-me
também das praias desertas, percorridas de ponta a ponta.
Ou quando descobrimos aquela cachoeira no meio do mato,
aquela cachoeira que devia ter uns 30 ou 50 metros de queda
livre, seus respingos gelados nos alcançavam na margem,
impossível chegar muito perto - aquela cachoeira descoberta
no meio da mata nos induzia à cumplicidade. As
luzes
acesas. Cumplicidade. Essência. E aquele espelho antigo -
aquele espelho antigo bisotado, patinado, recoberto pelo
amarelo do tempo - aquele espelho antigo nos refletiu
durante uma tarde. Estava na penteadeira diante da cama no
quarto do casarão colonial de fazenda, com os demais móveis
maciços e pesadões e o cheiro de pó, de coisa antiga do
quarto. Também encontrávamos muitos santuários religiosos
em nossas viagens, era como se nos impulsionasse
uma
atração magnética pelo sagrado.
Certas tardes
insuportavelmente quentes, abafadas demais. Houve um tempo
em que. As luzes. Essência. Impregnando irremediavelmente
tudo o que foi feito depois. Como a
transgressão é
quotidiana e imperceptível, como ser maldito é apenas uma
espécie de indiferença, lassidão, o deixar-se levar. O
cheiro de pó sobre os estofados. Eu quero que tudo fique
muito claro. Não só as palavras, o texto, porém
outro
plano, agora definitivamente grudado ao real. Ficou um
cheiro estranho, impregnando a pele. Tudo verdadeiro. Tudo.
Mas esse gesto de contar histórias impossíveis, qual é seu
significado? Que botão apertei? E agora, não deixar pedra
sobre pedra. Transformar o cotidiano em
hipérbole,
labirinto onde todos se
perderão brincando
despreocupadamente. A opacidade é quase banal. O jogo da
vida e da morte é trivial. Despertemos a irascível criança
que habita dentro de cada um de nós. Não há mistério. Que
não se fale em loucura. O lado de lá, o lado de lá que
caminha suavemente sobre suas sandálias de sola
de
borracha, o lado de lá disfarçado em arte plumária, o lado
de lá que sorri afavelmente enquanto nos olha de soslaio, o
lado de lá é simples e está aqui, basta estar aberto e
disponível. Somos deuses.
CLÁUDIO
WILLER
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